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Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Antropofagia na Lava-Jato


A Operação Lava-Jato foi e ainda é um divisor de águas na política brasileira. Ela trouxe à tona a forma como as alianças políticas e as trocas entre padrinhos e apadrinhados levaram o Brasil à bancarrota. Expôs de forma clara que a política no Brasil é feita para se atingir fins diversos, vez por outra os interesses coincidem com o cuidado com o que é público, com as necessidades da população e com o respeito ao dinheiro que sai a duras penas do bolso do contribuinte. São as entranhas do poder expostas e o intestino é o órgão mais feio de se ver. Porém a própria força-tarefa que comanda as investigações e a Procuradoria-Geral da República podem por este trabalho a perder.

Várias vezes eu disse que a Operação chegou em um ponto em que ninguém pode barrá-la. Trocando-se a cúpula da Polícia Federal, ela continuaria, trocando-se o foro, ela continuaria, trocando-se a Força-Tarefa do Ministério Público, ela continuaria. No post que publiquei em 24/05/2016, “Guerra de gravações” eu escrevi “A única coisa certa neste episódio é que a Operação Lava-Jato tem vida própria. O Presidente da República, o Ministro da Justiça, o Diretor-Geral da Polícia Federal, pouco ou nada podem fazer para “estancar” a operação. As únicas pessoas que podem causar dano à Lava-Jato são os próprios delegados e equipes da Polícia Federal, ao colher provas sem autorização legal ou outra derrapada jurídica qualquer e o próprio Juiz Sérgio Moro, se ultrapassar seus limites de atuação, o que não é o caso”. Parece que estamos começando a chegar neste ponto.

Em meu post não fui muito clara com relação ao Ministério Público e a Procuradoria- Geral da República. A delação e as gravações de Sérgio Machado e de Pedro Corrêa levantam mais dúvidas do que certezas. O que de fato foi provado ali, provas concretas e que não deixariam dúvidas para que estas gravações chegassem ao conhecimento da população, da forma como chegou e que justificassem inclusive pedido de prisão dos grampeados? Quais crimes de Renan Calheiros, Romero Jucá e Sarney foram comprovados ali? Esses senhores cometeram o “crime perfeito”, que só deixou a sombra? O que se ouviu foi Sérgio Machado conduzindo a conversa sempre em direção à Lava-Jato e aos problemas de Dilma. Por que em nenhum momento ele conversa com Renan, aquele um que tem 11 processos nas costas, nessas gravações, o que ele conversava às portas fechadas? Seu filho era operador de todos, nunca passou pela cabeça dele puxar um assunto, sugerir uma aplicação mais rentável, coisas assim?

Da mesma forma que as delações são públicas agora, é preciso informar o caminho do dinheiro. Quanto é, onde está, como foi parar lá, de onde saiu e para onde vai voltar? E outra coisa, pelos bens adquiridos pelos filhos de Machado, U$ 75 milhões é pouco para devolver! Muitas perguntas estão no ar em relação aos procedimentos adotados pelo Procurador-Geral Rodrigo Janot. Os vazamentos dos áudios e do pedido de prisão da cúpula do PMDB saíram sim da PGR. A base dos pedidos foi que os quatro, juntamente com Cunha, se uniram para criar a Solução Temer que enterraria a Operação, pela nomeação de Jucá e Fábiano Osório. Como seria possível se até hoje Renan Calheiros pende para o lado de Dilma?   Foi para “emparedar” o STF? Por que as denúncias não seguiram, em dois anos, o fechamento de investigações dos núcleos de atuação? Por que ele permitiu o fatiamento das ações, como no Caso de Gleisi Hoffmann? E Dilma? Se a Justiça e o modo de atuação é o mesmo para todos, por que Dilma só tem um inquérito e que já foi devolvido por Teori à PGR, com as gravações anuladas? As investigações só seguem em frente depois de uma delação?

O protagonismo de alguns está colocando um trabalho seríssimo e muito corajoso em jogo. Outra coisa que chama atenção são determinados ofícios que são despachados para alguns órgãos sem prévia autorização do juiz Sérgio Moro, como foi o caso do pedido de levantamento de projetos custeados pelo Ministério da Cultura à antiga CGU. O Ministério Público e a PGR já se esqueceram das lições aprendidas com as operações “Castelo de Areia” e Satiagraha, sendo que a Operação “Castelo de Areia” é a mãe da Lava_Jato. Ontem Renan Calheiros já ameaçou analisar um pedido de Impeachment contra Janot.

Que eles continuem fazendo seu papel, sem estrelismos, com provas concretas, privilegiando as investigações e tendo mais cuidado com as delações. A pena de Sérgio Machado é branda em comparação com o estrago que ele fez na Transpetro. A acusação que ele faz contra Temer é questionável e fácil de ser desmontada. Muito está sendo propagado na base do “ouvi dizer”. Aquilo que não foi provado sequer deveria ter sido divulgado, já que o estrago é difícil reparação. Não deve ser impossível provar, de forma inquestionável, a culpa dos que estão sendo acusados. Sem prova, delação está virando fofoca. E um trabalho de três anos, pode ser comido pela falta de credibilidade.

E eu continuo a perguntar há dois anos: E o dinheiro que foi para as Ilhas Cayman, que confirmou que José Dirceu tem contas lá?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Nuvem de sujeiras


Segundo a edição do jornal “O Globo” de hoje, em matéria assinada por Merval Pereira, a Procuradoria-Geral da República tem em seu poder uma série de e-mails que revelaram que Dilma tinha conhecimento das transações em Pasadena e que até seu cabeleireiro, Celso Kamura era pago com dinheiro desviado da Petrobrás. Cada viagem de Kamura para Brasília custava R$ 5.000,00. A PGR conseguiu estes e-mails acessando uma “nuvem” do Gmail.

O termo de delação da Odebrechet foi assinado esta semana. Segundo a PGR, elas não começaram ainda, mas conforme prometido nas mensagens do celular de Marcelo Odebrechet, não vai ficar pedra sobre pedra. As despesas pessoais de Dilma foram pagas pelos operadores do Petrolão e o crime de recebimento de vantagens ilícitas não é restrito a dinheiro, ele acontece também com o recebimento de bens e outras facilidades. O advogado de Dilma, José Eduardo Cardozo, queria juntar as gravações de Sérgio Machado na defesa contra o processo de Impeachment no Senado. Deveria juntar a afirmação de Renan Calheiros de que “a mulher é corrupta”.

Não importa se foi muito ou pouco, ao que parece, ela também se beneficiou do Petrolão. Se juízo, bom senso e responsabilidade tivesse, renunciaria. Como eu disse várias vezes, antes renunciar por crimes que ferem a Lei de Responsabilidade Fiscal do que por crimes tipificados na Lei de Improbidade Administrativa, que prevê penas que podem ser aplicadas concomitantemente àquelas previstas no Código Penal.

Mas, cada um tem sua natureza e Dilma mostrou bem a sua na saída. Antes de ser afastada, denunciou um golpe que continua repercutindo internacionalmente, colocando em dúvida o Governo Temer e atrasando negociações que poderiam ajudar o Brasil nesta crise que já é chamada de depressão. Antes de sair do Planalto, assinou uma porção de decretos que comprometeram o atual governo. O reajuste do funcionalismo, por exemplo, se negado colocaria a Administração Federal em pé de guerra com Temer. Como quem tem muito a explicar e deve muito, formatou hard drives dos computadores, deu fim em papéis públicos e outras coisinhas, para deixar quem chegou mais perdido que pato em temporada de caça.

Gráfico publicado na Revista Istoé - Janeiro/2016
Há mais coisas que devem ser explicadas e no caso, ressarcidas. Uma delas é a explosão de gastos dos cartões corporativos. Só em 2015, a Presidência da República gastou R$ 4 milhões com este cartão. Se todas as despesas para exercício do cargo são pagas pela Administração Pública e há salário e moradia, os gastos foram com o quê? O detalhamento das faturas é protegido por sigilo, mas diante do quadro de corrupção e desvios de verbas institucionalizado, não se justifica uma aberração destas.

Aos poucos o mito da mulher honrada e corajosa, que em duas ocasiões, nos discursos feitos no dia do afastamento, repetiu para o Brasil que “podia ter cometido erros, mas nunca cometeu um ato desonesto” e que o Jornal New York Times defendeu, dizendo que ela estava pagando um preço “alto demais, vai se esfacelando”. Estamos no meio do fim.