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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

domingo, 24 de abril de 2016

Muito além da banda larga


A imposição de limite para a banda larga despertou discussões acaloradas nas duas últimas semanas. O pronunciamento do Diretor da Anatel deixou um cheiro de “Caoa” no ar, já que vários questionamentos foram levantados como por exemplo o papel das agências reguladoras, que loteadas e dadas como mercadoria de troca em busca de apoio político, dão evidentes sinais de deterioração. Em que país do mundo opta-se por impor limites à internet, contrariando inclusive o Marco Civil, antes de cobrar desenvolvimento e ampliação de investimentos em infraestrutura? Se há demanda e as empresas não conseguem cumprir as metas, por que não abrir o mercado para outras companhias? Não foi este o passo dado na área de telecomunicações, que tirou o monopólio do Estado? Se hoje cada brasileiro tem mais de um aparelho de celular, foi graças à abertura feita no Governo Fernando Henrique Cardoso. Para quem não se lembra, uma linha de telefone custava um absurdo. Era tão caro que era comum dar-se um telefone como parte de um negócio, como por exemplo, na compra de imóvel.
Para mim, o que pesou na decisão das operadoras foi também o fator Netflix e o crescimento da oferta de serviços por streaming. Algumas das empresas solicitantes exploram o setor de televisão por assinatura. Uma delas chega a triplicar o preço de aquisição da banda larga se o cliente optar por assinar apenas este serviço, em detrimento do combo. A diferença é cobrada na “taxa de instalação” e desde o ano passado as assinaturas vendidas já vem com franquia. Os pacotes de canais oferecidos são ruins e caros, havendo uma diferença de cerca de 30% nos valores cobrados por estas operadoras quando comparados com outros comercializados por outras empresas. Enquanto isso, a Netflix vem surpreendendo inclusive a indústria de entretenimento, com séries como “House of Cards”, “Narcos” entre outras, que levaram atores, diretores e grandes roteiristas a apostarem no seguimento.

Mas as aberrações não ficam no ramo das comunicações. A “herança maldita” vai além. A indústria brasileira, que vem sofrendo um processo rápido de “desertificação”, em parte vêm assinando sua sentença de morte há anos. Os produtos brasileiros são caros e a qualidade de muitos deixa a desejar, isto não é novidade. O que vêm acontecendo também, em parte devido ao aumento de preços gerados pela alta da eletricidade, do combustível e do dólar e em parte pelas opções feitas por um empresariado que não respeita seu consumidor, é a diminuição da qualidade e da quantidade de alguns produtos.

Os biscoitos, muito antes do dólar bater em R$ 4,00 e terem sua produção afetada pelo preço do trigo, já tinham diminuído de peso. Um pacote de bolachas que antes pesava 200 gramas, agora pesa 147 gr, ou seja, uma diminuição de mais de  50 gramas. O requeijão, cujo peso variava entre 200 e 220 gr, agora varia entre 200 e 196 gr. Há caixas de sabão em pó com 900 gramas e o detergente aparentemente está mais diluído. No caso específico deste produto, algumas empresas alegam que a adição do tensoativo biodegradável causa este efeito. Se for este o caso, espero que este ano não vejamos mais algumas cidades serem engolidas por nuvens de espuma. De qualquer forma, se levarmos em consideração a diminuição de quantidades, o preço de muitos itens subiram muito mais que os índices oficiais demonstram.

O desgoverno que atinge o Brasil trouxe de volta uma inflação que não cede, nem diante da queda do dólar, que vem se acentuando no último mês. Pior que a inflação é a mentalidade inflacionária. Para deter esta última ameaça, é preciso tomar medidas estridentes, que podem levar indústrias a um perigoso patamar. Por enquanto, medidas como a abertura de importações estão fora da mesa. O valor do dólar torna este remédio ineficiente. A falta de critério na formação de preços será debelada por uma queda ainda mais acentuada no consumo, alimentada sobretudo pelo desemprego e também pela diminuição do real poder aquisitivo dos salários. Quando a situação chega neste ponto, opções tem que ser feitas.

Interessante é que até agora ninguém pôs a boca no trombone sobre estas “maquiagens”. Isto que está acontecendo é inaceitável e perigoso para a sobrevivência destas empresas. Há anos afirma-se o Custo Brasil está atrelado às leis trabalhistas, questões de logística e carga tributária. Ninguém fala da falta de critério dos empresários na formação de preços, na falta de investimentos e de desenvolvimento de processos para tornar esta indústria mais eficiente, diminuir custos de produção e evitar desperdícios. Se hoje, como aconteceu com a “linha branca de eletrodomésticos”, o Governo retirasse parte dos impostos que incidem sobre a produção, a vantagem para o consumidor final seria mínima. Eis uma das razões principais do fracasso das políticas de desoneração e do conteúdo nacional adotada por Dilma. Mentalidade não se muda com leis.

A indústria nacional vai continuar a regredir, infelizmente. Se agora, que muitos compram sem critério, a situação é esta, imagina quando chegar por estas terras, as iniciativas para o consumo consciente. Tanto na Europa quanto os Estados Unidos as medidas contra o desperdício são importantes aliadas na preservação do meio ambiente e no fortalecimento das economias locais. Compra-se exatamente aquilo que será consumido, privilegia-se a indústria e a produção periférica, que gera empregos e renda localmente, opta-se por comprar a granel, evitando grandes embalagens. Além destas iniciativas, governos vêm criando leis contra a obsolecência programada, que é a duração de produtos. A França está na vanguarda destas leis. Medidas como estas impactam diretamente na produção, na geração de lixo, principalmente o eletrônico e no desmatamento para agricultura e pecuária.

Os tempos são outros e os desafios também. Não há mais espaço para medidas como estas que os empresários brasileiros estão tomando, que além de tudo são muito antipáticas. Fosse em outros países, empresas que tomaram medidas como estas já teriam entrado para uma “lista negra” e veriam alguns protestos bem constrangedores em suas portas. Explicações teriam que ser dadas, que justificassem a prática. Ao que parece, por aqui, as coisas só voltam ao normal quando o Ministério Público entra em ação. Coincidência ou não, um dia depois do MPF pedir um estudo que comprovasse a necessidade de franquia na internet, o projeto foi suspenso por tempo indeterminado na Anatel.

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