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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

sexta-feira, 18 de março de 2016

Sobre Lula


Confesso que achei que na quarta-feira o Brasil ia explodir! Tenho alguns programas preferidos na TV e gosto especialmente do  Jornal das 18h, na Globonews,  apresentado pela Leilane Neubarth. Foi justamente neste horário que as gravações da Polícia Federal envolvendo Lula começaram a ser divulgadas, além das imagens dos primeiros protestos. Quando escutei a primeira gravação, entre Lula e Dilma, fiquei estarrecida juntamente com a Leilane, constrangida como a Cristiane Lôbo e francamente não sei definir até agora o que senti quando o repórter Marcelo Cosme disse que aquela era a primeira de uma série de gravações. 

Em todas os áudios, a voz inconfundível de Lula surgia, tramando, acusando, traçando estratégias de deixar Maquiável com inveja. Entretanto, a gravação onde ele fala da chegada da Polícia Federal no apartamento de Clara Ant foi hilária! Era evidente também o descontrole emocional do ex-presidente, o frenesi que ele viveu nestes últimos dias. Um homem acuado, com poder na mão, tentando se salvar das consequências desastrosas de suas escolhas, a qualquer preço, sendo cobrado insistentemente por amigos e companheiros de partido pelas dificuldades que o desastre anunciado que Dilma é, causa nas relações entre poderes e entre políticos.

Lembro-me bem de Lula, pois o conheci o personagem quando criança. Aquele cara barbudo, mal vestido, o metalúrgico que incendiou o ABC, que enfrentou a Ditadura, que era respeitado e ajudado por políticos e intelectuais da época. Lembro-me de Lula em cada uma de suas campanhas eleitorais e votei nele para Deputado Federal como um ato de rebeldia. Assisti ao debate entre  ele e Collor e todos estranhamos sua postura, seu silêncio constrangedor. Nesta eleição, anulei meu voto. Nunca votei nele para presidente, mas o "Lulinha paz e amor" tomou meu pai pelo coração. Meu pai viu nele um homem comum, que como ele, também não tinha estudado, que era do povo e que com certeza iria defendê-lo na luta por um país mais igualitário. Ele chorou muito na posse de Lula; afinal era um cara como ele que subia a rampa do Planalto. Meu pai desistiu de Lula no segundo ano do primeiro mandato dele e quando estourou o Mensalão, ele já tinha uma opinião bem formada sobre o ex-presidente, não muito diferente da que boa parte da população brasileira tem hoje. Na minha família o mito Lula acabou definitivamente em 2006.

Mas com a vitória na reeleição, apareceu o Lula poderoso, embalado pelos mais altos índices de aprovação e de popularidade que um presidente obteve desde Getúlio Vargas . Abusando de sua simpatia pessoal, "O cara" , como Barack Obama o cumprimentou, tinha um ego tão grande e era tão confiante em seu poder que ele achou que tinha o Toque de Midas, personagem mitológico que transformava em ouro tudo aquilo que caia em suas mãos. Vencendo uma aposta que ele fez consigo, ele transformou Dilma, uma pessoa com características técnicas, em presidente do Brasil. Não contente, através de alianças pragmáticas e altamente questionáveis, ele elegeu Fernando Haddad, o rostinho bonito do Ministério da Educação em prefeito da maior cidade do Brasil. Era como se ele dissesse: "Viu? Eu posso!". 

E foi assim que ele produziu dois dos maiores desastres políticos do Brasil, Dilma e Haddad que fracassaram espetacularmente em suas esferas. A administração da cidade de São Paulo está inchada de companheiros que não conseguiram a chancela do voto para exercer o poder ou foram desalojados por Dilma. O Brasil amarga sua pior recessão. Cada um deles é perseguido por denúncias de superfaturamento de obras, corrupção e por seus fracassos políticos. A cidade de São Paulo suja, poluída visualmente, cheia de mendigos é um retrato em escala do que o Brasil é hoje, curvado por uma paralisia e crises ética, política e econômica que se refletirão por anos na história do país. 
Ontem assisti à posse de Lula. Um homem alquebrado, visivelmente desconfortável, dividindo suas atenções entre o discurso raivoso de Dilma e o barulho das manifestações das pessoas contrárias à sua posse que estavam do lado de fora do Planalto. Com um olhar que transmitia desalento, ele sabia que na platéia estavam os aliados úteis de sempre, que ocupam cargos além de suas competências, seus torcedores. Ele sabia que fora da sala, tinham cerca de 400 manifestantes, entre eles, muitos funcionários da administração pública, que foram flagrados depois tirando a camiseta vermelha do partindo e exibindo a camisa social de trabalho, arregimentados pelo PT, para fazer frente aos 2.000 manifestantes que gritavam "Fora Lula, fora Dilma, fora PT", de graça e espontaneamente em Brasília e em outras cidades do Brasil.

O Lula de ontem sabe que pouco pode fazer para unir forças ao redor de Dilma, que o Impeachment é certo e que as gravações foram um tiro certeiro em sua biografia e em sua liderança histórica, construída duramente ao longo dos anos,  inicialmente por sua luta e depois por obra de marqueteiros ilustres. O Lula de ontem sabia que não era mais a "bala de prata do PT" e que tinha somado sua crise pessoal à crise política de Dilma, engrossando um caldo e fazendo transbordar a sopa da panela. Ele sabia que sua saída a la  Casa Civil vai custar muito caro para todos e que dificilmente ele conseguirá articular algo com qualquer político fora do PT. O Lula de ontem,  confesso,  me comoveu e fiquei imaginando  que  talvez pensasse em seus erros passados e se arrepende de não ter pensando:  "Viu? Eu posso, mas sei que não devo."