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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

domingo, 15 de novembro de 2015

Ou isto ou aquilo

As manhãs de domingo para mim são um prazer. Gosto de acordar cedo e ler meus jornais e revistas sem pressa, passando depois para sites e minhas redes sociais. As notícias se repetem mas é sempre possível encontrar um ângulo novo e checar na internet o desenrolar dos fatos. Nos dois últimos anos, tenho sentido um profundo desprazer quando chego na metade do caminho.

Primeiro você se depara com a notícia, em seguida com um artigo, de preferência politicamente correto, que explica de acordo com um ponto de vista muito particular o fato e de quebra levanta uma certa polêmica. Depois vêm os infindáveis debates, contra ou a favor. Para concluir, os rótulos. Ou você é reacionário e de direita (não há como excluir um do outro) ou você é de vanguarda e da esquerda. Ou você se importa pelo desastre ambiental ocorrido em  Mariana ou lamenta pelas mortes em Paris, polêmica que já tinha sido levantada no início do ano, contrapondo os ataques à capital francesa e as atrocidades cometidas pelo grupo Boko Haram na Nigéria. Ou assiste a um filme que aborda um fato histórico ou se vê mergulhado em um debate interminável sobre as minorias. Li um artigo em um site americano em que o autor protestava contra as mortes de atores asiáticos em filmes de Hollywood, bem como li algumas críticas ao filme "Stonewall", porque a história é contada a partir de personagem branco.

O tempo todo estamos escolhendo causas e lados, usando argumentos novos para repetir paradigmas antigos e comportamentos detestáveis. Assim, se você protesta contra a corrupção, a ineficiência do governo atual, a forma como poder foi tomado e loteado, você é reacionário e golpista. Não importa os R$ 42 bilhões apurados em desvios da Petrobrás, investigações sem fim, delações, provas e a repetição dos mesmos nomes em crimes diferentes.  Não importa se a máquina do governo e milhões pagos em impostos foram utilizados para garantir um novo mandato. O pedido, acatado pela Justiça Eleitoral para investigar o abuso de poder econômico que obviamente ocorreu nas eleições passadas é golpe.

Da mesma forma, há que se elogiar os programas sociais, isto não faz de mim uma bandida, mas há que se concluir que o viés ideológico que o governo petista escolheu para governar o Brasil está ultrapassado, é letra morta. Na política externa, lados foram escolhidos, foram criadas alianças ineptas com países como Irã, Venezuela, Argentina e ditaduras africanas. Deram "o pé" nos EUA o tempo todo, esquecendo que é o país que mais compra produtos industrializados brasileiros. Ou isto, ou aquilo. Resultado: o Irã e Cuba negociaram seus acordos com os americanos, a Venezuela é uma ditadura escancarada, com um pé calcado no narcotráfico, a Argentina é a Argentina; Os EUA estão em negociação para implantar o Tratado de Comércio Transpacífico (TPP), que beneficiará o Chile, o Peru, a Austrália e até o Vietnã...

Com relação à França e Mariana, tem gente agindo como se fosse uma partida de futebol. Um é alvo da intolerância, travestida de religião e do desejo de impor e de conquistar território, de espalhar um conflito mundo afora. Ignorar isto é ignorar a História. No mínimo, o que estamos vendo requer reflexão. O que aconteceu em Mariana foi obra do descaso, da falta de vigilância, que custou até agora 23 vidas, um distrito, a sobrevivência de um rio, de um ecossistema completo. É resultado da política do progresso pelo progresso, dos erros de engenharia, do descaso com o meio ambiente e com os habitantes. Há que se lembrar que há mais barragens em Minas Gerais que também podem se romper a qualquer momento. E há que se lembra do viaduto que caiu, do estádio que precisa de reformas um ano depois de ter sido inaugurado, dos conjuntos habitacionais com falhas estruturais em seus projetos que precisaram ser demolidos antes da inauguração.

Há portanto várias coisas que aproximam Mariana e Paris, sendo que a principal é o valor da vida humana. Nas duas, a possibilidade de perdas são imensas, seja pelo agravamento de um conflito que pode se tornar global, seja por outro "tremor" que derrube uma barragem ou uma obra.  Não há que se escolher causas, há muito o que se lamentar e temer. Para os que acham que os atos terroristas estão longe de nós, procurem saber mais sobre o que acontece na Tríplice Fronteira e saiba que o Brasil não tem controle nenhum de quem entra em nosso país. Lembrem-se do atendado à Sinagoga na Argentina, há 21 anos atrás, lembrem-se que nossas aeronaves fazem vôos internacionais. 

A questão aqui é de humanidade e de amor. Quanto você é capaz de amar, quanto você é capaz de se importar. Para terminar, deixo aqui o poema de Cecília Meireles, publicado em um livro do mesmo nome, no ano de 1964, há 51 anos atrás. Bom domingo a todos!

 Ou isto ou aquilo
"Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo."
Cecília Meireles, 1964

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