Quem sou eu

Minha foto

Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

domingo, 1 de novembro de 2015

O novo movimento de Consciência Negra no Brasil


Há coisa de uns três meses,  um novo "movimento social" está crescendo na surdina, com todas as distorções inerentes aos que já conhecemos, que são criados, patrocinados e utilizados conforme a conveniência de  alguns  que  insistem  em utilizar uma causa "contra a sociedade", mas que exigem dela prerrogativas que ferem normas, direitos e enfrentamento e posteriormente criarão despesas. Como alguém disse a "rebeldia no Brasil é paga pelos cofres públicos".

O novo Movimento de Conscientização Negra
Composto por jovens e nascido nas universidades, principalmente nas de São Paulo que adotaram o sistema de cotas para estudantes negros, estes movimentos tem feito manifestações que em nada contribuem para o debate da causa, pelo contrário, por suas atitudes criam um sentimento de antipatia em quem os vê em ação.  Em setembro, 300 estudantes participavam de um debate na PUC-SP sobre Programas Assistenciais, quando foram interrompidos por 6 a 7 militantes do movimento "Coletivo de Negros e Negras da PUC", que invadiram o auditório reclamando por não terem sido convidados para o debate. Mesmo após serem chamados pelos palestrantes para que um deles participasse da mesa, não houve negociação. Houve sim discursos sobre a situação dos negros no Brasil e o término do debate decretado por um deles. A ação do grupo causou indignação nos alunos que assistiam ao debate, a mesma descrita pelos estudantes da USP Ribeirão Preto que tiveram suas aulas invadidas e foram acusados de "dever até a alma para os negros", em Maio. Duas semanas atrás, veio a público uma inscrição em uma parede de um banheiro da Faculdade Mackenzie que dizia que "lugar de negro é no presídio e não na faculdade". Na sexta-feira, dia 20/10,  um novo incidente aconteceu na  Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo, precisamente no banheiro feminino. A mensagem dizia: "Faculdade não é coisa de preto. Turbante não é coisa de faculdade. FDSBC sem pretos."

Ku Klux Kan tupiniquim
Quem será que foi o autor destas pichações, já que há mais de 20 anos sabe-se que o racismo é um crime inafiançável? A quem interessa a propagação do ódio explícito, da denúncia de segregação, do estabelecimento de "lugares" pré-determinados pela "sociedade branca", impossíveis de serem superados pelos negros? Quem ganha com a divisão?
Será que os autores não são aqueles que mais se beneficiariam da visibilidade, ganhariam justificativas e seguidores para a "luta", que servirão aos propósitos de quem  criou, organizou e está financiando estes grupos? Dividir para conquistar ou para se manter no poder. O preconceito racial existe e é forte no Brasil, mas ocorre de maneira velada, rasteira e na surdina, se manifestando em situações de emoção ou que envolvem riscos da perda do "status quo" imaginário. Cruzes não são queimadas, ninguém anda por aí de camisolão e máscara. Não é declarado, não é assumido, porque ninguém quer ir para a cadeia por ter cometido um crime inafiançável. Alguém já viu passeatas, organizações que atuam à luz do dia para defender a exclusão ou o cerceamento de direitos dos negros?

Não temos leis segregatórias e a Constituição Federal, aquela senhorita quase balzaquiana,  defende a igualdade e condena o preconceito de cor, pele e religião. Pela lei somos iguais, ao contrário dos personagens do livro "Revolução dos Bichos", que concluíram que alguns animais são "mais iguais" que os outros. Qualquer lei que diga o contrário deve ser questionada quanto ao caráter inconstitucional de sua natureza, geralmente pelas "Adins" (Ações Declaratórias de Inconstitucionalidade) que são julgadas pelo Supremo Tribunal Federal, guardião da Constituição . No ordenamento jurídico, as leis tem que estar de acordo com o previsto na CF, que é a lei maior.

O lado trágico destes movimentos é a criação de polêmicas, o acirramento de posições, as ofensas de cunho pessoal, que tem por objetivo criar lutas, com base em mentiras. Guardadas as devidas proporções, este foi o objetivo de Dyllan Roof, aquele rapaz que matou negros em uma igreja de Charleston, no sul dos EUA fara fomentar a guerra racial. Charles Mason acreditava que os assassinatos que cometia serviriam de combustível para o "Helter Skelter" uma guerra apocalíptica entre brancos e negros.

Estudos questionáveis
Em 2013 foi publicada uma pesquisa feita pelo Dieese, indicando que os salários dos negros é menor do que os pagos aos funcionários brancos que exercem a mesma função, de acordo com dados do SPED (Sistema de Emprego e Desemprego).  Gostaria que este estudo fosse realizado com empresas, já que os dados do sistema não são minuciosos. É preciso levar em conta o salário médio pago pela empresa, função, etc. Para que possamos chegar a uma conclusão clara sobre o papel do racismo nas relações profissionais é preciso comprovar que funcionários que exerçam a mesma função na mesma empresa recebam salários diferentes. Este cenário precisa ser replicado em várias empresas, em várias cidades, em diversos estados para que a afirmação seja consistente.  Para início de conversa, a afirmação que uma empresa adota uma prática destas é confirmação de crime. Questiono e muito este estudo, porque por exemplo, se o ramo de atuação da empresa é Construção Civil e eu tenho curso superior em  Psicologia, não significa que meu título me dará direito à remuneração de um engenheiro. De qualquer forma,  a afirmação final foi de que sob qualquer perspectiva o negro ganha menos que o branco.

Ao mesmo tempo, não me lembro da publicação de nenhum estudo que mostra o percentual de negros em cargos de chefia, cuja presença cresceu e pode ser facilmente verificada em várias empresas.
Individualmente, poucos devem algo a alguém.
Em uma sociedade em que a presença de imigrantes é forte e temos a miscigenação como característica preponderante na formação da população,  é desrespeitoso abordar indivíduos e acusá-los de racismo por sua posição social ou pela cor de sua pele.

Tomo como exemplo minha família. Boa parte dela chegou ao Brasil depois da libertação dos escravos. Temos italianos, portugueses e libaneses nesta turma. A parte mais antiga da família é produto da miscigenação entre brancos, índios e negros. Em algum ponto, alguém passou a ser classificado como branco, o que não foi suficiente para que os bebês que nascessem carregassem até hoje uma mancha negra, como se fosse um hematoma, no quadril e nas costas. Esta mancha tem vários nomes, entre eles, "Mancha de Caim", "Mancha mongólica", 'jenipapo" e revela ascendência africana (80%) ou asiática (90%), que não é o caso. Nas conversas de algumas tias antigamente, quando um bebê nascia, era comum perguntar se tinha a "bunda roxa". Meus filhos, que carregam a herança genética de minha família e da do pai, eram crianças louras com alguns pontinhos pretos no bumbum. Embora tenhamos este sinal ao nascer, ninguém foi beneficiado por nenhum sistema de cotas.

Ninguém em minha família conheceu ou manteve escravos, mesmo a parte mais antiga, que está no Brasil há mais tempo. Perguntei a minha mãe e a minha avó se elas conheceram pessoas que os possuíam ou sabiam de histórias do período da escravidão. Ninguém sabia. Perguntei a amigos e a resposta foi a mesma. Curiosamente, a parte que veio do Líbano poderia saber algo, já que no Oriente Médio, a servidão foi recorrente até o início do século passado. Por este prisma, não devemos "nossa alma a ninguém".

Uma questão de consciência e de justiça
A sentimento que temos em relação à comunidade negra nasce da consciência, do respeito ao semelhante e do amor pela justiça. Houve sim escravidão, muitos foram tratados como "peças", famílias foram separadas, pessoas foram vendidas como animais em praça pública e após a abolição eles saíram da  escravidão para a miséria. A dívida com os negros é da sociedade em geral e é preciso criar e manter instrumentos de inserção e de fortalecimento do conceito de cidadania, onde todos são sabedores de seus direitos e obrigações, que é preciso respeitar uma pessoa pela sua condição humana, sem apostos. Uma sociedade justa se constrói principalmente pelo respeito.  As cotas nas universidades são um caminho, mas não são a solução. As cotas nos concursos públicos, em minha opinião, são injustas, porque colocam em xeque o mérito.

Devemos estudar nossa história racionalmente e entender como as coisas aconteceram e lembrar que ao fazer este estudo é preciso contextualizar o fato com o que ocorria no mundo. A escravidão é um capítulo vergonhoso na história da humanidade e jamais deverá ser repetida, em circunstância alguma com ninguém e isto inclui os bolivianos que trabalham em confecções e os haitianos que vêm para cá em busca de uma vida melhor. Punir os que exploram imigrantes e trabalhadores em geral, que oferecem condições de trabalho análogas à escravidão é um dever permanente da sociedade. A radicalização destes movimentos de defesa dos negros não é positiva para ninguém e não pode crescer baseada em mentiras, em fatos construídos para dar visibilidade a situações irreais. Toda luta deve ser baseada na verdade e nada se aproveitará do confronto construído e alimentado por interesses escusos.

Chegamos até aqui, o desafio é saber como e para onde vamos. Aproveitar as conquistas de muitos que lutaram com muita dignidade por seus direitos e não desperdiçar esta caminhada com factoides e embates pessoais. Para os pichadores, fica aquele velho ditado repleto de sabedoria: Nenhuma mentira dura para sempre. A última coisa que o Movimento Negro precisa é ter sua legitimidade questionada por pessoas que dizem agir em defesa, mas na verdade, não respeitam sua luta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui seu comentário: