Quem sou eu

Minha foto

Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Sobre o fechamento de escolas em São Paulo


A taxa de crescimento da população brasileira vem caindo e a expectativa de vida do brasileiro é hoje de 81,3 anos. As famílias já não são numerosas e é comum nos surpreendemos com casais com mais de dois filhos. Em parte devido à urbanização, em parte devido a uma política de   controle de natalidade mais eficiente e em parte também por ser possível escolher o momento  certo e se um casal deseja ter filhos.  A "multiplicação" já não é uma demanda obrigatória em um casamento. Filho é um assunto sério, é para a vida inteira, demanda cuidados, educação, investimentos constantes e literalmente não é para qualquer um. É preciso querer e se comprometer com este ser que não pede para nascer, mas cuja presença será sentida, com maior ou menor intensidade até o final dos seus dias.  
Crescimento das escolas particulares
Há dez anos atrás participei de um simpósio sobre o setor de educação particular e a diminuição do número de alunos já era prevista. Em várias cidades do interior de São Paulo pré-escolas municipais foram fechadas pelo número baixo de alunos matriculados. Os prédios foram utilizados paras outras funções, como por exemplo para apoio à população de rua.

O crescimento do número de alunos matriculados em escolas particulares explica-se pelo crescimento econômico que o Brasil teve entre 2008 e 2010.  Com a ascensão da nova classe média, os pais optaram por qualidade em educação e em saúde, o que levou vários alunos da rede pública para a rede particular. Da mesma forma que a melhor estratégia de marketing na área de saúde é o medo do SUS, a baixa qualidade de ensino oferecida pela rede pública e o aumento dos casos de violência envolvendo alunos e professores não deixaram para os pais muito espaço para escolha

O mundo se transforma em uma velocidade assombrosa, conhecimento é indispensável e o aperfeiçoamento deve ser constante. O mercado de trabalho é extremamente competitivo. Quantas pessoas não conhecemos que tem dois cursos superiores? Quantos alunos mal terminam a faculdade e já ingressam em cursos de especialização e pós-graduação? Em tempos de poucas oportunidades de emprego, o critério de escolha levará em conta a experiência e a  formação do candidato.
Distribuição de alunos por escolas e ciclos.
Há aproximadamente 15 anos, esta distribuição já é feita na rede pública no interior de São Paulo. Foi uma transição relativamente tranquila. Enquanto mãe, achei que foi melhor para meus filhos. Eles tiveram a escola para eles, puderam desenvolver seus padrões de comportamento mais livremente, sem aquela pressão do grupo. Há mais espaço para o reforço que vem de casa. Para os alunos da primeira fase do ensino fundamental, a escola é mais limpa, os intervalos são separados e foi o fim dos "encontrões" . As turmas se fortaleceram e formaram amizades que duraram até o fim do Ensino Médio.

Não posso comparar a realidade de uma cidade de 300.000 habitantes com a Grande São Paulo. Se meus filhos percorriam praticamente a mesma distância, nos grandes centros a história é diferente. O próprio transporte público já expõe o aluno a riscos. Uma solução possível seria os ônibus escolares gratuitos. O custo do  fornecimento de transporte é bem inferior ao custo de uma escola com número pequeno de alunos, afinal, há que se pagar professores, coordenadores, inspetores de alunos e todos os outros membros da equipe, além das contas de água, luz, telefone e as despesas com a manutenção predial.

Outra coisa que é preciso levar em conta é o número de alunos por sala de aula. Classes numerosas são sinônimo de problemas, de baixo aproveitamento e de alta rotatividade de professores. Acho que esta é uma daquelas medidas que terão seus resultados avaliados a médio prazo e a participação dos pais é fundamental.

Evasão escolar
Uma vez que a questão do transporte, do número de alunos por salas de aula, da qualidade das instalações e do corpo docente não implique em perdas para os alunos, é uma tentativa válida em solucionar alguns problemas crônicos do ensino público. Os professores advindos de escolas que obtiveram bons resultados devem obrigatoriamente continuar a ter condições de desenvolver um bom trabalho. Através de sua experiência profissional, de seus resultados eles passarão a ser um modelo para os demais. É uma questão de respeito e reconhecimento do mérito de cada um. O que não pode é jogar todos na mesma vala comum, há que se ter muito cuidado com o corporativismo da classe, que é forte.

Com relação à possibilidade de evasão escolar, há leis para manter o aluno na escola até o término do Ensino Fundamental. Com relação ao Ensino Médio, que é o grande gargalo da educação, a transformação dos prédios das escolas que serão desativadas em ETECs e FATECs é um ganho e um incentivo imenso para os alunos, já que neste tipo de escolas eles aprendem uma profissão. É a tão almejada ligação entre o ensino teórico e a vida profissional, além de ser uma política extremamente positiva em relação ao mercado de trabalho, que precisa de mão de obra qualificada. Neste quesito, acho que a mudança é extremamente positiva, pois traz para perto de casa e gratuitamente, a oportunidade de construir um futuro melhor.

Escolas da periferia
Como dizia o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa". O critério foi o número de alunos e não o desejo maligno de punir os mais pobres, que alguns acreditam que figuras políticas tem e que alguns órgãos da imprensa, principalmente aqueles que recebem fartas "verbas publicitárias" do Governo Federal propagam. Por que não questionar se depois eles não irão querer dominar o mundo?

Acho que se de fato houver a transformação destas unidades em ETECs e FATECs, é um ganho para a população da região em geral. Nada impede que um adulto faça seu curso técnico à noite, que ele volte a estudar. As FATECs oferecem cursos de excelente qualidade, inclusive com programas de especialização e pós-graduação, além de serem gratuitas. É  democrático e justo a instalação delas nas periferias das grandes cidades, onde elas são mais do que necessárias. 

Agora é hora de dialogar, de negociar, de superar as dificuldades e não de acirrar posições. O que o Estado de São Paulo não pode de forma nenhuma é reduzir ainda mais a qualidade do ensino oferecido à sua população. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Nuvem negra no horizonte - Os planos de saúde


Quando ouvimos uma notícia ruim na economia, temos uma imensa dificuldade em entender o impacto daquilo que acreditamos ser um fato isolado para o nosso dia a dia. Foi assim com a realidade econômica disfarçada e repleta de subsídios em 2014 e com as análises econômicas de então.  Todos economistas sérios diziam já em 2013 que deveriam ter ocorridos ajustes setoriais, que uma vez não feitos gerariam um efeito cascata: inflação, recessão, desemprego, rebaixamento das notas do Brasil e de empresas brasileiras pelas agências internacionais e a saída dos investidores e de empresas do país.

Estelionato intelectual
Além da crença absoluta no "governo do povo", somos vítimas também dos estelionatos intelectuais cometidos por  determinados meios de comunicação, que se pautam mais pelas verbas publicitárias vindas do Governo do que pela veracidade e importância dos fatos. Repito aqui o que todos dizem: Esta crise será longa e veremos ainda muitas consequências da irresponsabilidade e incompetência dos que  dirigiram nosso país pelos últimos 12 anos. Isto precisa ficar claro nas notícias dadas, não adianta tapar o sol com a peneira, não adianta colocar matérias sobre cinco empresas que estão desafiando a crise e esconder as próprias demissões e dificuldades que alguns destes grupos, donos destes veículos de comunicação, estão passando.

O desemprego está crescendo comprovadamente, não é "quanto pior, melhor". O índice de setembro está aí para provar. Lentamente, o que ouvíamos falar que tinha acontecido lá no Nordeste ou em algumas capitais vai chegando perto de nossa realidade. Já estamos naquele patamar onde todo mundo conhece alguém que está desempregado porque a empresa cortou postos, porque fechou, porque diminuiu as vendas e assim vai. A empresa que mais cresce no Brasil é a "Aluga-se". Tem placas em quase todos os bairros deste país.

Corte nos planos de saúde empresariais
Os que perderam emprego perderam também o convênio ou seguro saúde. Os que ficaram perderam também este benefício ou passaram para a categoria co-participação, onde pagam um valor acordado por cada procedimento médico realizado. Faz todo sentido iniciar o corte de despesas por ai, já que não se pode diminuir aleatoriamente salários,  que é uma medida meio que extrema, que  precisa ser acordada entre empresa e sindicatos, requer diminuição da carga horária ou,  para se enquadrar no programa do governo que permite até 30% de diminuição dos salários, é preciso comprovar a precariedade da saúde financeira da empresa. O convênio médico é o primeiro benefício a ser cortado e não há muito o que fazer porque a concessão não está prevista em lei. 

Do outro lado, temos as operadoras, que apostaram forte no seguimento empresarial, já que o plano familiar ou individual é caro para o padrão de renda do brasileiro e é trabalhoso para as operadoras. Há dois meses atrás, na cidade de São Paulo havia três operadoras que aceitavam beneficiários individuais. Uma delas era a Unimed Paulistana. Temos ainda no meio da relação a ANS, que atualiza o rol de procedimentos que os planos devem cobrir, o aumento dos custos de procedimentos e insumos e por fim, a importação de muitos equipamentos e materiais utilizados diariamente em muitos atendimentos. Importar com dolar a R$ 2,00 é uma coisa, a R$ 4,00 é bem outra.

Efeito dominó
A intervenção feita na Unimed Paulistana foi a medida mais desastrada que já se viu em um setor cujo indicador é o número de vidas. Os beneficiários estão até hoje vendo para onde vão correr. Interessante é que a saúde financeira da Unimed Paulistana não era segredo para ninguém e justamente por isso a ANS deveria ter tido mais cautela com os beneficiários, que deveriam ter sido informados em primeiro lugar. Aliás, no comunicado que deveria ter sido enviado a eles, já deveria haver a sugestão de quais  Unimeds iriam assumir a carteira. Teve gente que ficou quase dois meses esperando pela liberação de uma cirurgia. Teve gente que foi atrás de liminar para obrigar a Unimed Brasil a atender. Agora, a Unimed Rio de Janeiro também está com problemas.

É preciso levar em conta também a diminuição de receita ocasionada pelas baixas nas carteiras das operadoras está causando nos prestadores de serviço. Algumas empresas médicas investiram pesado na compra de equipamentos, muitos deles importados e na ampliação do atendimento. As demissões neste setor serão inevitáveis e algumas destas empresas estarão financeiramente comprometidas por anos. É preciso lembrar que em um mesmo dia, foram demitidos na cidade de São Paulo, 1.500 funcionários da Unimed Paulistana e 1.500 da Santa Casa de São Paulo. Foram eliminadas 3.000 vagas no setor de saúde em um só dia!

Tabela do SUS e diminuição de leitos
Além dos problemas com as operadoras, que chegaram a crescer 10% em um ano, há uma realidade que ninguém pode esconder: O Sus é incapaz de absorver este contigente todo que está saindo da Saúde Suplementar, ou seja, dos convênios. A tabela do SUS não é reajustada desde 2007 e o número de leitos oferecidos pela rede pública caiu drasticamente.Entre 2010 e 2014 o SUS perdeu 13.000 leitos.

Para que qualquer hospital possa atender SUS ele tem estabelecer uma quota e contar com atrasos no repasse dos recursos. Um hospital tem que ter outras fontes de renda e gerenciar muito bem os atendimentos, caso contrário ele quebrará. Há anos a situação das Santas Casas está parada no Congresso sem solução. Da mesma forma que aconteceu em outros setores da economia, o Ministério da Saúde passou complementos para algumas instituições, de acordo com o número e complexidade dos atendimentos. O que se pagava por uma consulta médica em 2007 hoje não cobre o custo de um curativo.

Cortes no orçamento do Ministério da Saúde
Ampliar a rede do SUS este ano é impossível. No esteio do Ajuste Fiscal, o Ministério da Saúde teve um corte de R$ 11 bilhões. Sendo pouco "administrar a escassez" como disse a Presidente Dilma no início do ano, este Ministério foi passado de porteira fechada para o baixo clero do PMDB, como moeda de troca para manter a maioria no Congresso, manobra esta que beira a imoralidade. As declarações do atual Ministro da Saúde já dão uma amostra de sua capacidade em administrar a pasta.

E os beneficiários?
Para quem tem doenças crônicas, carências cumpridas e previsão de cirurgias ou de tratamentos clínicos caros, é fundamental manter seu plano de saúde. É importante pesquisar preços em outras operadoras e lembrar que há uma norma de portabilidade de carências, assim não é preciso começar do zero. Os planos que oferecem co-participação são interessantes, mas é preciso manter uma reserva para os casos de emergência .  As operadoras terão que negociar diretamente com os beneficiários que perderam os planos, oferecendo condições para que eles continuem contribuindo, mesmo em planos diferentes. 

A ANS poderia também editar normas que autorizem a criação de planos para atender por exemplo, somente internações ou que estabeleça limites de consultas. Talvez um híbrido dos produtos que estão no mercado.
O importante é que as cooperativas, a Associação Brasileira de Medicina em Grupo ( Abramge) e a ANS cheguem a um acordo e se antecipem ao efeito dominó. Basta lembrar que o maior incentivo para se optar por um plano de saúde é o medo que todo mundo tem do SUS.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Eike Batista e o Petrolão


De dono de uma das maiores fortunas do mundo ao maior fiasco no já visto no mundo dos negócios brasileiro, Eike Batista vem enfrentando os problemas decorrentes da derrocada de seu grupo, que captou milhões no mercado de ações e deu um prejuízo também milionário aos investidores que acreditaram em seus projetos. Em agosto, Eike e e seu sobrinho foram convocados pela CPI do BNDES. Segundo o Deputado Antonio Jordy (PPS-PA), autor do requerimento, Eike Batista e as empresas de seu grupo receberam do banco R$ 10 bilhões e foram "selecionadas" pelo governo para se tornarem gigantes em seu setor e competir globalmente. Agora, o empresário passará também a ocupar as páginas do noticiário dedicado à operação Lava Jato.

A homologação da delação premiada de Fernando Soares, o Fernando Baiano que acreditava-se ser o operador do PMDB vem trazendo surpresas em série. Primeiramente, por seu papel junto a Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Jader Barbalho e também por revelar que Fernando foi o representante da OSX para promover a participação do estaleiro na Sete Brasil, empresa criada pela Petrobrás para construção de navios sonda. Para obter sucesso, Fernando precisou dos serviços prestados por Luís Carlos Bumlai. Os dois dividiriam a comissão paga pela OSX pela intermediação. Bumlai é  aquele amigo pecuarista de Lula, a segunda pessoa autorizada a entrar na sala do então presidente sem bater. A primeira era Dona Marisa.  

Segundo Lula, Bumlai pode ter se aproveitado de sua amizade para fazer negócios, ele não sabe de nada. Segundo Fernando Soares, ocorreram duas reuniões no Instituto Lula, com a presença de Lula, João Carlos Ferraz, ex-presidente da Sete Brasil e Luís Carlos Bumlai, para tratar da participação da OSX. O dinheiro pago à nora de Lula, R$ 2 milhões, que seriam utilizados para pagar uma dívida de um imóvel, foram pagos  a Bumlai, por Fernando , como um "adiantamento".  Trocando em miúdos, o dinheiro pago à nora de Lula veio de Eike Batista e da OSX. Em sua delação, ele já se comprometeu a apresentar o comprovante da transação, que foi realizada através da "engenharia" peculiar a este tipo de negócio.

A ascensão de Eike Batista nos círculos do poder é marcada por várias coincidências. Uma delas  é sua atuação em áreas que agora sabe-se que movimentaram milhões em propinas. O Grupo EBX era composto principalmente pela OGX, criada para atuar na  extração de petróleo do pré-sal , MPX , no setor de Energia, MMX  em mineração, OSX, empresa naval, LLX em logística  e responsável pela construção do Superporto do Açu, no Rio de Janeiro. Provavelmente serão também investigadas nos inquéritos do Petrolão e Eletrolão. Boa parte destas empresas atuou no âmbito de Minas e Energia, cuja Ministra da pasta foi Dilma Rouseff

Eike Batista foi tão poderoso no Governo PT que foi usado por Lula e Dilma para acelerar a queda de Roger Agnelli frente à Vale. É importante lembrar que durante a gestão de Agnelli que foi indicado pelo Bradesco para o cargo, a empresa cresceu e muito,  aproveitando principalmente a expansão da China. Ele foi demitido em 2011, depois de forte pressão exercida por Guido Mantega, como representante do governo junto ao Bradesco. 

Espero que a CPI do BNDES não termine de forma lamentável, como foi a da Petrobrás. Os "campeões nacionais" não surgiram por acaso. Quais foram os critérios de "seleção" para o recebimento de tanto dinheiro do banco por estas empresas?  Quem são os intermediários e como agiram para o sucesso destes grupos? A coisa é tão vasta, que faltam inclusive perguntas, mas os que devem responder estão aparecendo lentamente, através das investigações e delações. Será que não seria melhor aplicar uma certa engenharia reversa e investigar a lista dos beneficiários dos maiores empréstimos concedidos pelo BNDES?

terça-feira, 20 de outubro de 2015

É preciso querer mais


Hoje, infelizmente, assistimos a mais uma tragédia no Rio de Janeiro ocasionada pelo uso incorreto de gás de cozinha. Infelizmente, porque estas explosões ocorrem no Brasil inteiro e embora o que aconteça no Rio  naturalmente tenha uma maior visibilidade, esta é a segunda grande ocorrência em menos de um ano. 

A primeira aconteceu em um prédio residencial e tirou uma vida. Em ambas, o prejuízo material foi imenso e dificilmente poderá ser reparado por quem foi responsável. Como estamos acostumados a ver depois de uma tragédia destas, a irresponsabilidade e a falta de fiscalização são sempre apontadas como fatores que favorecem estes tipos de acidentes. Veja bem a conclusão que chegamos: o indivíduo que possui um estabelecimento comercial não tem responsabilidade para lidar com gás, que é explosivo, que vem com várias advertências no lacre, que poderia ocasionar sua própria morte ou de pessoas em seu estabelecimento. Será que foi só neste quesito que faltou responsabilidade? E no manejo dos produtos que ele serve?

Se pensarmos que há mais de 20 anos somos assolados pela dengue, que muitas cidades deste país não tratam o próprio esgoto e o despejam em rios, às vezes perto de nascentes,  que nas comunidades carentes há um problema crônico com lixo, que a Baia de Guanabara tem qualidade da água muito próxima a de um despejo de esgoto, que na época das chuvas há inúmeros relatos de deslizamentos e soterramentos em locais onde não poderiam ter construções, que bueiros explodem em ruas, não uma, mais diversas vezes, enfim, na quantidade absurda de tragédias, doenças e mortes que temos anualmente ocasionada pelos mesmos problemas, chegaremos a conclusão que falta responsabilidade ao poder público e ao cidadão.

Todos nós sentimos que a justiça foi feita quando um empresário, um político ou outro figurão responde processo, é obrigado a ressarcir os prejuízos que causou ou é preso por corrupção ou outros crimes. Quantos de nós ouviram falar em alguém que pagou uma multa ou foi obrigado a pagar os custos de tratamento de alguém que teve dengue por manter em sua casa um criadouro de mosquitos? Quantas vezes ouvimos falar que um condomínio foi multado por despejar esgoto sem tratamento em rios? Quantos prefeitos perderam seus mandatos por não tratarem esgoto e não cuidarem da coleta de lixo? Quantas pessoas foram impedidas de construir casas em áreas com risco de contaminação ou desabamento? As leis são para todos e a Justiça também, para os grandes e pequenos, para educar a sociedade através dos erros e falhas que se transformaram em tragédias, de forma que elas não se repitam.

No caso da fiscalização, ela tem que ter um caráter educacional, mas se há reincidência, há que se punir o rico e pobre igualmente. Se toda pessoa que se recusasse a abrir sua porta para os agentes de saúde ou que tivesse criadouros em sua casa fosse multada e processada, não teríamos epidemias cavalares como as que temos anualmente. Se a multa fosse recolhida para a Previdência Social, a dengue já estaria erradicada no Brasil, uma vez que os encargos por atraso ou não pagamento de débitos relativos à Previdência são gigantescos. Se os poucos fiscais que vistoriam estabelecimentos comerciais recebessem uma remuneração digna, com metas de visitas e fosse acrescida alguma verba por produtividade, as únicas explosões que ouviríamos seriam de fogos de artifício
É preciso querer mais, basta de falar "que é difícil, que as coisas não vão mudar, que é assim mesmo". Este tipo de pensamento mata a vontade de se fazer melhor, é conformista, justifica a omissão. É preciso querer ter uma vida melhor e para isso é preciso denunciar o que está errado, cobrar pelo prejuízo que se sofreu em virtude do descaso alheio e começar a agir. Culpar o Poder Público é cômodo, denunciar o vizinho já é outra coisa. É preciso deixar de lado também o "coitadismo". Quantas vezes não escutamos as pessoas justificarem os erros das outras com frases como: "Coitado, ele não fez por mal", "Coitado, tão gente boa". Ter boas intenções e ser uma pessoa do bem não o absolve de seguir a lei, de ter responsabilidade naquilo que faz, de agir de forma a não prejudicar o próximo. Além de não ajudar em nada, este sentimento é muito bem explorado por aqueles que fazem divisão ridículas entre classes sociais, estados, ect, o famoso "nós contra eles".

E embora tenhamos uma presidente e um ex-presidente que justificam todos seus erros na base do "eu não sabia de nada", é preciso que a sociedade entenda que não se pode evocar o desconhecimento da lei e das normas como motivo para o seu não cumprimento.  Neste caso, talvez, a título didático, seria melhor começar a punir os de cima.

domingo, 18 de outubro de 2015

Sharon Tate Recollection


Como a história terminou,  todos sabem. Em uma noite, uma gangue de jovens liderada por Charles Mason, assassino já condenado e líder espiritual de um seita invadiu uma casa em
Los Angeles e assassinou todas as pessoas presentes na casa. Entre elas, estava um jovem de rara beleza, grávida de 8 meses e meio, que chamou por sua mãe nos últimos minutos de sua vida.
A jovem é a atriz Sharon Tate, esposa do então já consagrado diretor Roman Polanski. Na época ela tinha 26 anos e além da aparência, era muito talentosa. Embora tenha tido uma curta carreira, sua participação no filme "O Vale das bonecas" lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro. Sobre suas conquistas e quão longe chegaria  é uma pergunta em aberto, comum quando pensamos nos jovens que partem cedo demais. Durante anos seu nome e sua existência para muitos sempre esteve associada a Mason, mas passados quarenta e cinco anos de sua morte, em 2014, sua irmã, Debra Tate lançou um livro de memórias, para que Sharon possa ser lembrada pela pessoa que foi, por suas realizações, pelos amigos e familiares que deixou.

Sharon e Polanski 

Eles se conheceram em Londres, através do agente de Sharon que sabia que Polanski iria filmar  " A dança dos vampiros".  Durante o jantar de apresentação, Polanski não falou com ela o tempo todo. Quando a levou para sua casa, pediu que ela esperasse na sala e voltou usando uma máscara de Frankestein, agindo como um louco. Após ela partir aos gritos ele ligou para o agente e disse que ela tinha ganhado o papel. Durante as filmagens, eles se apaixonaram e depois de viverem um tempo morando juntos, se casaram. Sobre ela, Polanski deu um depoimento tocante no livro: " Ela não era inexperiente ou ingênua, o clichê de uma jovem atriz. O que mais me impressionou nela não foi sua beleza, mas a gentileza e bondade que ela irradiava.  Viver comigo naquela era época já demonstra sua paciência porque era uma provação. Ela nunca foi temperamental, nunca teve variações de humor. As pessoas e a imprensa destacavam sua beleza, mas poucos sabiam que ela tinha uma belíssima alma e isto é algo que somente seus amigos mais próximos sabiam.
Ela gostava da vida de esposa, era uma dona de casa nata que gostava de cozinhar e fazia pratos maravilhosos. Gostava de cortar meus cabelos, de arrumar minha mala quando eu viajava, sabendo exatamente o que colocar. Até hoje para mim é impossível fazer ou desfazer minhas malas sem pensar nela. Mesmo depois de tantos anos, eu não consigo assistir um pôr do sol, entrar em uma adorável casa antiga ou ver uma paisagem sem pensar instintivamente que ela adoraria isto. E são coisas como estas que me manterão fiel a ela até o dia de minha morte."

Tess

Ela queria ter o bebê perto de sua família e Polanski precisava ficar em Londres por mais tempo, pois estava procurando locações para o filme "O dia do golfinho". Quando Sharon partiu para os Estados Unidos a bordo do navio "Queen Elizabeth", ela deixou para ele o livro " Tess of the D'Ubervilles" de Thomas Hardy com um bilhete pedindo sua opinião sobre uma possível adaptação da obra para o cinema. Polanski filmou "Tess" em 1979,dez anos após a morte de Sharon. O filme, até então a mais cara produção da França, foi sucesso mundial, com Nastassja Kinski interpretando Tess. Na abertura há uma dedicatória para Sharon. Este é o único filme de amor que ele dirigiu.

Barbie Malibu

A boneca lançada em 1971 foi baseada no personagem que Sharon fez no filme "Não faça onda". Certa vez ela disse que gostaria de ser uma princesa de contos de fadas, com asas delicadas e usando um vestido esvoaçante, cheio de pequenos objetos brilhantes.




Os amigos

Os amigos e os que conviveram  Sharon destacam sua gentileza,  docilidade, a amizade e o carinho que tinha por todos. Mia Farrow é uma das amigas que deixou seu depoimento no livro, pois Sharon às vezes visitava Polanski no set de "O bebê de Rosemary", onde colaborou com algumas sugestões para o projeto. Além dela, o livro traz também os depoimentos de Jane Fonda, Warren Beatty, Joan Collins entre outros. Todos falam também sobre o amor e a felicidade do casal.

O livro não chegou a ser lançado no Brasil, mas é possível comprá-lo pela Amazon. É uma leitura interessante sobre uma época distante. Foi feito para celebrar a vida de Sharon, sua beleza, suas conquistas e sua juventude.  O prefácio é de Roman Polanski e traz fotos lindas da atriz, do marido e amigos. Tanto a mãe como as irmãs de Sharon dedicaram a vida a ajudar mulheres vítimas de violência. Durante muitos anos foi como se Mason tivesse conseguido matar não só a pessoa, mas também a memória de Sharon. O livro celebra a vida e encerra o ciclo.

sábado, 17 de outubro de 2015

Ray Donovan


Na última promoção da HBO, onde todos os canais foram abertos, pude assistir alguns episódios da série Ray Donovan. Embora o Canal Cinemax exiba a série, é virtualmente impossível assistir qualquer filme ou programa neste canal. Se o filme tem 1h30 de duração, no Cinemax você levará 2h30 para assistir. São tantos cortes absurdos, tantos comerciais que é possível você assistir o mesmo comercial no mesmo intervalo duas vezes, pelo menos, e a maioria deles é sobre a própria programação. Mesmo assim, consegui assistir a pelo menos três episódios de uma série que está indo para a quarta temporada e já tinha gostado muito. Com áudio original e sem intervalos, ela é imperdível.

A série acompanha a vida de Ray, um faz-tudo das pessoas importantes de Los Angeles. Ele é aquela pessoa que é chamada para consertar situações, um "fixer".  Assim,  se há um incidente que pode provocar um escândalo, ele e sua equipe "limpam" as evidências, pagam ou ameaçam testemunhas, cuidam das vítimas. Embora ele ganhe bastante dinheiro com esta "prestação de serviços", ele enfrenta dificuldades em sua família. Seu casamento está chegando ao fim, a filha adolescente está cheia de problemas, o pai, interpretado magistralmente por Jon Voight e vencedor do Globo de Ouro por sua atuação na série, foi libertado da prisão é um canalha, que manipula os filhos, extremamente problemáticos, conforme suas conveniências. Os irmãos tem recorrem sempre a  Ray, que é o único que vê o pai como ele realmente é,  o enfrenta, desarma seus truques, mas vez ou outra o pai leva a melhor.

O ator Liev Schreiber, conhecido pelo papel de Victor Creed, o Dente de Sabre no filme X-Men Origens: Wolverine, não tem longas linhas de texto ou mesmo os monólogos brilhantes de Red Reddington em The Blacklist. É uma atuação contida, mas ele usa o olhar como ferramenta de trabalho. Através deste olhar, você percebe a dor, a violência e a solidão do personagem. Há três anos ele tem sido indicado para o Globo de Ouro e infelizmente ainda não venceu, embora tenha merecido. Aliás, ele é um excelente ator de teatro, especialista em Shakespeare e vencedor de um Tony.

Os maiores problemas de Ray estão no passado e naquilo que ele se recusa a aceitar. Neste ponto, o espectador sabe mais sobre o personagem do ele mesmo.  Na próxima temporada, que estreará apenas em 2016, a trama se passará em outra cidade, não abandonando totalmente Los Angeles. Vale a pena acompanhar a série. 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Força contrária

Os que justificam as pedaladas fiscais como um esforço do Governo Federal para manter os programas sociais, estão redondamente enganados. Um programa social faz parte de uma política de governo. Em sua criação, ele dever prever seu custeio, sua abrangência e os requisitos para o enquadramento. O Bolsa-Família, por exemplo, foi criado através da Lei 10.836, de 09/01/2004 que prevê que o custeio será feito por dotações próprias em orçamento e pelas advindas do orçamento da Seguridade Social. Defender que um programa de tamanha importância para milhões de brasileiros dependa de manobras fiscais é um argumento falacioso.

As pedaladas fiscais tornaram-se necessárias pelo excesso de despesas em 2013 e 2014 e já se sabia, na época, que a arrecadação tinha caído. O controle de preços dos combustíveis imposto à Petrobrás, que quase destruiu o Programa do Etanol e abalou a estrutura financeira da empresa, aumentado seu endividamento, quando ela pagava mais caro pelo barril de petróleo no mercado internacional e vendia os derivados a preços baixos internamente. O alto endividamento da empresa derrubou uma opção de financiamento. A política desastrosa que baixou o preço da energia elétrica quando o país passava por uma severa estiagem, fez com as usinas térmicas, que utilizam combustível na geração, e transformou empresas relativamente saudáveis financeiramente em dependentes de repasses do Tesouro Nacional, que está exaurido.

Por fim, temos a implantação da nova matriz macroeconômica, que apostou no crescimento do consumo e na desoneração setorial, abrindo mão de mais receitas. Basicamente, na área econômica, com poucas diferenças, repetiu-se a desastrosa política desenvolvida na época de Ernesto Geisel, responsável em grande parte pelo crescimento da inflação, estagnação econômica e isolamento, que levaram o país à hiperinflação anos depois. Em todas medidas adotadas, há a assinatura de Dilma Rousseff. O estelionato eleitoral foi necessário para tapar os rombos e enterrar muitos outros fatos que só com o passar do tempo descobriremos.

Na nota que acompanhou o rebaixamento do grau de investimento, tirou o selo de bom pagador e nos colocou em categoria especulativa, a Agência Standard&Poor’s, cita não só as desavenças no Congresso que impedem a implementação do Ajuste Fiscal, como também a falta de comprometimento e coesão do Governo em arrumar as contas públicas. Neste primeiro rebaixamento, foram cortadas as notas de 31 empresas, entre elas Petrobrás Eletrobrás, Itaú, Bradesco, Globo, Ambev entre outras. Estas empresas terão que pagar mais caro por dinheiro captado no exterior, o que certamente comprometerá novos investimentos. Com o rebaixamento da nota da Agência Fitch, que ocorreu esta semana, mais empresas tiveram suas notas revisadas, entre elas a Globo Participações, Vale e BRF.

Nosso governo atual pouco ajuda e muito atrapalha. Boa parte destas empresas viu suas dívidas triplicarem quando do dólar chegou a R$ 4,00. Em uma entrevista, a Diretora da Agência Fitch Shelly Shetty  , disse que o Ajuste fiscal é mais importante que a permanência de Dilma, já que o Impeachement só se refletiria na análise dos critérios se trouxesse instabilidade política e econômica ao país. O que todos sabemos é que para implementar as duríssimas políticas previstas no Ajuste é preciso ter confiabilidade, o que este Governo não tem.  É preciso ter pessoas qualificadas, que realmente entendam a situação do país e este Governo não tem. Para propor a criação de um novo imposto em época de recessão é preciso que todos estejam comprometidos e unidos para superar as dificuldades. Este Governo carece de todas as qualidades necessárias. A permanência de Dilma é literalmente uma força contrária e pesada aos esforços necessários para superarmos nossas dificuldades, que durarão até 2017.

Pior ainda é ver a luta pela permanência no poder envolver o Judiciário e membros do Congresso Nacional. A forma como alguns políticos se atracam em disputas por cargos e ministérios é degradante. Não está em jogo uma luta para atender as necessidades do povo brasileiro, mas sim a defesa de interesses que pouco ou nada tem de republicanos. Cobra-se a Oposição, mas esquece-se que os parlamentares do bloco são minoria e que são reféns dos ritos ditados por Eduardo Cunha, cujo maior interesse agora é salvar-se, Renan Calheiros que tem muitas explicações a dar e do Judiciário, que em um único dia deu três liminares sobre o rito do processo de Impeachment, sendo que uma delas inclusive cerceia a atividade legislativa.
Não há entre a base de sustentação do Governo entendimento ou compromisso com o futuro. Há o pior do pragmatismo político. A saída de Dilma não é um recall eleitoral, não é um golpe, não é terceiro turno. É uma questão de sobrevivência para o país, é a credibilidade e o comprometimento em ajustar as contas públicas que está em jogo, é a segurança das instituições, é a confiança que o Brasil é um terreno fecundo para investidores. É atravessar o desastre, sem uma âncora no pé. 

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

As várias faces do mesmo problema


Quem se acostumou com a versão mais light de Dilma Roussef nos últimos meses, tentando bravamente demonstrar um pouco mais de humildade e compreensão com os dificuldades que o Ajuste Fiscal e a recessão trouxe à população, pode ter até se surpreendido com seu discurso e performance no Congresso Nacional da CUT, dia 13, em São Paulo. Vale lembrar que a performance da dama de vermelho ocorreu em prédio, dentro de uma sala, com convidados escolhidos para presenciar uma atuação que beirou o grotesco. Duvido que ela repetiria o feito em praça livre. 

Temos uma presidente que exibe uma face para cada conveniência. Se acossada pelo TCU e TSE e abandonada pela base de apoio de "ocasião", movida pelas nomeações que estão enchendo as páginas do Diário Oficial, que custou até mesmo o compromisso de corte de 3.000 cargos comissionados na "Reforma Administrativa" e na Proposta de Orçamento enviada ao Congresso;  ai aparece a face da conciliação, da busca de entendimento, da "transição". Se, após as denúncias contra Cunha e três liminares concedidas pelo STF, onde em pelo menos uma delas caberia um belo Embargo de Declaração por cercear a atividade legislativa, ela põe o modelito vermelhinho e sai a desfilar um rosário de bravatas, atacando a tudo e todos e praticamente confessando para quem quiser ouvir os motivos que levaram seu governo a maquiar as contas públicas e dar as famosas "pedaladas fiscais".

Para os que assistem estas pantomimas com olhar mais crítico, fica claro a falta de conteúdo, a incapacidade em aprender com seus erros, que aliás, ela tem certeza que não cometeu nenhum. Fica evidente que, embora contra ela não exista nenhuma acusação formal de envolvimento no Petrolão, Eletrolão e por último, na venda das Medidas Provisórias para o setor automotivo ( 09 no total), que ela esteve muito perto ou em posição de comando e decisão na Casa Civil, no Ministério de Minas e Energia e como Chefe do Conselho da Petrobrás.  O desconhecimento que alega beira a negligência e não é condizente com seu próprio método de trabalho, onde quer saber todos os detalhes de tudo.
Quando afirma que os que a acusam não  tem reputação ilibada para questionar sua honra, esquece que 53 milhões de brasileiros acreditaram nas mentiras mais que comprovadas que contou em sua campanha eleitoral. É portanto uma mentirosa e também tal característica não é condizente com alguém que tenha reputação idônea . Ela própria não é detentora daquilo que exige como condição prévia de seus oponentes. Quando atacando os adversários, citando tentativas de golpe e de terceiro turno, esquece-se que sua campanha está oficialmente sob investigação do TSE por abuso de poder econômico, o que pode levá-la a perder a pretensa legitimidade das urnas.

Ancorada em liminares, com as contas recusadas e comprovadamente maquiadas, com sua campanha em investigação, governando através do escambo mais escandaloso de cargos e recursos públicos, temos uma presidente governada que finge que governa para os que fingem que acreditam. Quem exibe muitas caras não tem nenhuma.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Uma questão de escolha


A coisa toda começou com incidentes isolados que envolviam pessoas famosas. As fitas de sexo entre casais, geralmente envolvendo celebridades foram a semente dos vídeos e fotos de sexo entre adultos e adolescentes que inundam o Facebook e grupos de Whatsapp hoje em dia.

Quem se esqueceu da célebre gravação da lua de mel de Pamela Anderson, sex symbol do momento e de seu marido, o baterista do Mötley Crüe Tommy Lee?  Depois de inúmeros vazamentos de um material que foi roubado da casa deles durante uma reforma, os dois firmaram um acordo com a Vivid, a maior produtora de vídeos adultos dos EUA sobre os direitos de imagem e distribuição. O que para os dois foi um escândalo e fonte de problemas durante anos, para outros foi a abertura das portas do estrelato. Os casos mais famosos foram os de Paris Hilton e de Kim Kardashian. A partir dai, com o crescimento das redes sociais e o desenvolvimento de novas tecnologias, não há um limite claro entre o que é íntimo e envolve o prazer do casal com o que é feito para humilhar e denegrir, com o máximo de crueldade possível, a imagem de outra pessoa, não importando se é uma criança, um adolescente ou adulto, se para consumação do ato foi utilizada violência ou coação. 

O número de queixas em delegacias tem crescido exponencialmente, a idade das vítimas surpreende. Em um caso recente, o casal tinha 12 e 16 anos de idade. Para esta menina, reconstruir a vida será difícil, porque ninguém que compartilhou se lembrou que ela era pouco mais que uma criança. Os casos de vingança, após términos de relacionamento expõem a vítima e o caráter de que compartilhou. Se eu recebesse um vídeo destes, eu teria certeza de que a pessoa que compartilhou seria um canalha, além de criminoso. Se uma pessoa é capaz de tamanha baixeza com alguém que já dividiu emoções e a intimidade com ele ou ela, o que esta pessoa não seria capaz de fazer? Pior ainda é quem se vangloria de ter feito um registro destes sem conhecimento da outra parte, de forma vil. É interessante manter uma pessoa destas como amigo?Certamente, eu não passaria para frente.

As fotos e filmagem existem, não há muito o que se fazer para prevenir o registro, mas depende de cada um de nós enviar a mensagem para frente. O segredo dos grupos e das redes sociais é o compartilhamento e aquilo que você passa adiante é o que você tem por dentro. Mesmo que você escreva uma crítica na postagem, ao compartilhar você é mais um elo da corrente. A escolha é sua, o caráter é seu mas lembre-se que ao divulgar estas imagens, você poderá responsabilizado por crimes de injúria além de ser responsabilizado pelo dano a moral e a imagem causado, tendo que reparar financeiramente o estrago.

O mesmo vale para quem está compartilhando fotos de pessoas doentes, com deficiência, aquelas que imputam conduta criminosa ou injuria à pessoas. O que aconteceu com o cantor Cristiano Araujo e sua noiva foi o auge da falta de sensibilidade e de desrespeito a dor alheia. Quem tira este tipo de foto e compartilha, esquece que a morte é a única certeza de quem está vivo.  Quem compartilha este tipo de imagem incorre no crime de Vilipêndio de cadáver, cuja pena é detenção de 01 a 03 anos e multa. E se fosse com você ou com alguém de sua família? Na dúvida entre o certo e o errado, pense naquilo que você não gostaria que fizessem com você.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Condomínios e sustentabilidade



Em minha cidade houve uma explosão de condomínios, verticais e horizontais. Não é um acontecimento isolado; o crescimento de novos empreendimentos nos últimos anos puxou a economia. Tanto em minha cidade como em outras tivemos problemas com animais silvestres. De uma hora para outra, eu, que aos 47 anos só tinha visto onça no zoológico, comecei a ler notícias sobre atropelamentos destes animais.  Em 2013 apareceu uma onça em uma garagem de uma casa em condomínio. Não só a cidade cresceu e expandiu seus limites, avançando em áreas rurais e de mata como a cultura da cana de açúcar, matéria prima do etanol se aproximou dos centros urbanos. Toda a cadeia natural que havia nas matas foi destruída e estes animais vem buscar alimento nas cidades. Dia desses, saiu uma notícia sobre um abrigo de animais que não estava aceitando mais "moradores" novos. 
Alguns podem ler este parágrafo e dizer que é um sinal dos tempos, que coisas assim são tristes, mas fazer o que, a cidade tem que crescer, as pessoas precisam trabalhar. Eu prefiro acreditar que somos inteligentes o suficiente para planejar nosso crescimento. Em minha cidade, alguns destes condomínios estão com cerca de 50% a 70% dos terrenos desocupados e procurando um pouco mais, você ainda consegue comprar terrenos e casas em vários deles. Outra coisa que percebo é a mobilidade; pessoas mudam de um condomínio para outro, não é população nova. Mas a derrubada de mata, a infraestrutura e cercas já estão prontas. Não há como limitar esta especulação imobiliária travestida de progresso? Não seria melhor condicionar a criação destes condomínios, principalmente os que necessitem de derrubada de áreas verdes  ao esgotamento das unidades existentes? O próprio mercado imobiliário não estaria a salvo de uma desvalorização, pelo excesso de oferta? E com relação aos animais? Não seria razoável a elaboração de um estudo e a criação obrigatória de pequenas reservas, que seriam custeadas pelo vendedor, incorporador e pelo comprador?

Ontem, feriado nacional, decidi visitar um empreendimento novo, vertical, de duas torres e cerca de 100 apartamentos, cujas primeiras unidades estão sendo vendidas. A corretora foi extremamente simpática e acessível. Apartamento decorado visitado, valor informado e decidi perguntar sobre quais medidas de sustentabilidade foram incorporadas ao projeto. Com muito orgulho ela me informou que há um projeto para reaproveitar a água dos aparelhos de ar-condicionado. Perguntei sobre o lixo e águas pluviais. Não, não há projeto. Se o prédio não foi construído ainda, ficaria tão mais caro assim um projeto de reuso das águas pluviais? Não é nossa obrigação poupar os recursos do nosso planeta? Não deveria ser lei?

Estamos engatinhando na questão da sustentabilidade e não é por falta de informação, é porque estamos acostumados com a fartura. Os avisos que o sistema Cantareira e os grandes reservatórios das usinas deram no último ano foram insuficientes. Não pensamos no dia de amanhã, somos como crianças. Se acontecer algum problema, a culpa é do governo. No ano passado, pelo menos trezentas pessoas saíram às ruas em São Paulo, protestando pela falta de água e acusando o Governador Geraldo Alckmin de "estelionato eleitoral". Quantas, dessas pessoas se dedicaram a economizar água, a replantar árvores em locais que tem nascentes ou mesmo na região da Cantareira, que tem um déficit na vegetação? 

Há iniciativas belíssimas como a do fotógrafo Sebastião Salgado, que praticamente sozinho, reflorestou uma grande área no Espírito Santo. Os olhos d'água voltaram a aparecer e os resultados são visíveis. Há várias iniciativas como estas, feitas por pessoas que anonimamente recuperam áreas, protegem nascentes de rios ou constroem parques, mesmo contra a vontade inicial dos comerciantes, como foi o caso do empresário Hélio Silva, que plantou sozinho 17.685 árvores. Ele acabou por criar em Tiquatira, na Penha, o primeiro parque linear da cidade. Todas as espécies de árvores são nativas da Mata Atlântica.  Outro exemplo valioso é do Professor Rodolfo de Oliveira Souza, que já plantou mais de cem árvores, com dinheiro do próprio bolso, para recuperar uma área mata na Serra do Engenho Novo, em Vila Izabel.

Exemplos como estes precisam ser multiplicados. A tarefa é de todos e não exclui o papel dos Poderes Executivo e Legislativo, em todas as esferas. Criar leis para barrar o crescimento desordenado, exigir que novos projetos residenciais e comerciais tenham soluções sustentáveis como reaproveitamento das águas pluviais é um começo.  Respeitar às áreas com vegetação nativa, plantar árvores, ter mais seriedade com o problema do lixo e consumir conscientemente é tarefa individual e inescusável de todos nós. É melhor administrar a distribuição e renovação de recursos enquanto abundantes e quando várias frentes de atuação são possíveis, porque na escassez, não há muito o que fazer.

sábado, 10 de outubro de 2015

A arte do desapego: Renúncia


A necessidade de liderança é inerente à condição humana. Diria até que é algo biológico, porque os animais também tem seus líderes e  quando chega a hora em que um dos membros do bando quer assumir a liderança, há uma luta, que pode terminar em morte ou não. Se este for o caso, o vencido aceita e ocupa seu lugar junto aos demais liderados sem maiores traumas.

Ser líder exige muitas qualidades e pré-requisitos e  não é para todos. O poder, a posição, as facilidades do cargo são menores do que a responsabilidade, a visão e a capacidade em avaliar e decidir questões que afetarão a muitos, positiva ou negativamente durante pouco ou muito tempo. E é preciso também ter sabedoria para deixar o cargo, às vezes antes de ser desafiado por outro membro do grupo. Aliás, uma escolha recorrente é entre construir um legado ou se agarrar ao cargo, entre ter poder ou manter a capacidade de influenciar, de ser uma voz e uma permanente fonte de consulta. 

Trazendo este entendimento para a nossa realidade, estamos vendo diariamente duas figuras públicas de desmancharem diante da nação e levarem junto as instituições que representam. As semelhanças entre Dilma e Eduardo Cunha  são imensas. Há algum tempo atrás, escrevi um artigo durante o período eleitoral em que dizia que se o que acontecesse aqui estivesse ocorrendo em qualquer outro país do mundo, que Dilma já teria renunciado à sua candidatura. O tempo passou e hoje vemos que teria sido melhor para ela, para o PT e para o país que a história tivesse sido assim. Tivemos que ver a nossa presidente  mentir várias vezes em cadeia nacional, adotar a tática do rolo compressor e tratar oponentes como inimigos, questionar seu conhecimento e envolvimento em escândalos que se sucederam em ritmo alucinante e enfrentar uma das crises econômicas mais severas pela qual o Brasil já passou, causada por erros cometidos por ela  na escolha e  condução de políticas sócio econômicas. Além disso, temos uma presidente sitiada, com um discurso confuso e desconexo que assombra a todos. 

O deputado Eduardo Cunha encontra-se em situação pior. A escolha e eleição dele para comandar a Câmara dos Deputados é um mistério que só o tempo e a determinação de Dilma, aconselhada por Aloizio Mercadante em eleger Chinaglia poderão explicar. Há muito tempo Eduardo Cunha tem muitas explicações para dar. Há vários processos que só a morosidade da justiça brasileira é capaz de explicar a ausência de uma condenação formal. O próprio comportamento dele no  mandato anterior já deixava muito claro o que vinha por ai e mesmo assim ele foi eleito para a presidência da Câmara com maioria significativa.

Tanto Dilma como Cunha são intransigentes na defesa de seus mandatos. Quando dizem que não renunciarão  e que cumprirão suas tarefas até o fim, o que se pretende é passar a imagem de guerreiros, dos que estão prontos ao martírio em nome do Brasil. A realidade é que ambos estão encastelados em seus cargos, apegados a ilusões. No caso de Dilma, o engodo é a legitimidade do processo eleitoral; no caso de Cunha, a confiança na impunidade que o acompanha até aqui e no enorme influência que exerce sobre os que surpreendentemente ainda o apoiam.

A permanência de ambos não traz benefício nenhum às instituições que representam e ao país pelo qual acreditam estar prestando relevantes serviços. No caso de Dilma, a falta das qualidades necessárias ao desempenho do cargo é latente; Cunha por sua vez, não reúne condições morais, diante do que até agora já foi comprovado, em liderar a Câmara em mar revolto, o que acontecerá fatalmente em um processo de impeachment. São represas construídas por castores, que certamente não aguentarão a pressão e espalharão muitos detritos no rompimento.

A arte do desapego é praticada principalmente em nome de um bem maior. A renúncia, embora desistência, é um ato de sabedoria de um líder em nome do bem coletivo. Ela não precisa ser dramática, não precisa ser tomada no último minuto, ela pode ser planejada de forma a propiciar uma transição tranquila. Renunciar também é um ato de grandeza, de sabedoria e também de coragem. Só que também é preciso reconhecer a hora certa e no caso dos dois, a janela está se fechando.