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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

sábado, 10 de janeiro de 2015

Um parto de problema

A opção pelo parto normal que de opção passou para cruzada, ganhou um conjunto de regras criadas pelo Governo Federal e Agência Nacional de Saúde para incentivar  os médicos a optar pelo procedimento.  As normas são as seguintes:
1.Beneficiárias de planos de saúde, gestantes ou não, terão acesso às estatísticas elaboradas com dados fornecidos pelas operadoras, com nome do estabelecimento, taxa de cesáreas por médico hospitais e operadoras.
2.As operadoras deverão fornecer às gestantes um cartão com todos os dados do pré-natal para que qualquer médico plantonista possa fazer o parto sem sustos. As operadoras terão que enviar à gestante uma carta com esclarecimentos sobre o parto normal e a cesárea e dados de acompanhamento da gravidez.
3.O obstetra deverá elaborar um partograma, no qual constará todas as informações sobre o parto, medicamentos usados e se a gestante é diabética ou portadora de qualquer outra doença crônica.

Depois da implementação destas normas, serão criadas Diretrizes Médicas que poderão prever que a cesárea só poderá ser feita depois que o trabalho de parto tenha tido início e também podem decidir que o médico não receberá seus honorários quando entender-se que a cirurgia foi desnecessária. Medidas como esta acabam por coagir o médico a optar pelo parto normal e deixam uma margem bem estreita para que ele tome uma decisão contrária, inclusive de tempo. A questão de se fazer a cesárea após o início do trabalho de parto é questionável, já que ele tentará fazer o parto até quando for possível. E se for tarde? E se não houver sala disponível no centro cirúrgico?

Parto normal para mim é aquele em que a mãe e filho não passam horas em um sofrimento desnecessário, que não utilize instrumentos como o fórceps para tirar a criança, causando ferimentos na face ou mesmo quebrando a clavícula do bebê. Tão importante quanto o tipo do parto é ter um plantonista com prática e conhecimento técnico e cirúrgico suficientes para a tarefa, já que o médico que acompanha o pré-natal, aquele que você escolheu e confia não é obrigado a estar presente. Tão importante quanto tudo isso é ter um pediatra assistindo o parto e dando pronto atendimento nos casos em que há complicação, evitando seqüelas permanentes em crianças. A rede pública está pronta para oferecer este serviço? Os plantonistas, mesmo dos hospitais particulares tem este grau de preparo? Antes de tentar mudar a realidade pela caneta, os primeiros dados que a mulher tem direito de acessar são os que a informam sobre as condições atuais dos hospitais, critério de contratação de plantonistas obstetras, aparelhos na sala do parto para socorrer a criança em caso de emergência, condições do berçário, nome dos pediatras e garantias que ela terá caso a cirurgia acabe sendo necessária.

Acredito que ninguém esqueceu o que aconteceu do final de 2013 ao início de 2014, na Maternidade Amélia Buarque de Holanda, no Rio de Janeiro. Onze bebês morreram e os pais relataram que mães chegaram a ficar 24 horas em trabalho de parto. Um caso de morte materna ocorreu também no mesmo hospital. A Maternidade em questão foi inaugurada em 2012 e é uma referência na rede pública em partos humanizados, contando com equipamentos de ponta para atendimento neonatal. Problemas como alta rotatividade de funcionários, pressão para o parto normal, protocolo que permitia a participação do médico apenas na etapa final do processo e acompanhamento feito prioritariamente por enfermeiras obstetras que recepcionavam a mãe a atendiam até quase o momento do parto foram observados.


É louvável que o Brasil tente atingir os índices preconizados pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas é importante lembrar que em muitos países que alcançam estes índices, as mães são preparadas durante toda a gestação para o parto normal, com a presença inclusive do pai da criança. As equipes também são bem preparadas, já que o parto vaginal faz parte da cultura e há um médico presente o tempo tudo além de equipamentos para acompanhar o nível de stress do bebê. Por aqui,  muita coisa ainda é novidade. A decisão pela cesárea é do médico e também da mãe e o profissional não pode ser coagido por ninguém a fazer algo que ele não concorda e ser punido, com suspensão de seus honorários depois que o procedimento for analisado por outros profissionais que não acompanharam o desenrolar do caso. A melhor profissão do mundo é ser engenheiro de obra pronta, onde todos os “poderia ter sido assim” são possíveis. Normal é que mãe e bebê passem bem durante e após o nascimento e que o evento não se torne um trauma para a mulher e que a criança não tenha seqüelas irreversíveis que comprometam sua qualidade de vida.

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