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Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Radicalismo em Paris

A revista “Charlie Hebdo” sempre se considerou uma voz livre que se manifesta contra qualquer tipo de extremismo, sendo ele religioso, político ou social. Desde 2006, quando a primeira sátira ao Profeta Maomé foi publicada, passando pelo ataque a bomba à sede da editora em 2011, ao ataque de hackers a seu site e por processos onde foram acusados de racismo,  a revista sempre lutou pela liberdade de expressão, considerando as sátiras o exercício deste direito e chamando de terroristas aqueles que traiam o Islã praticando atos de violência em seu nome. Hoje, doze pessoas morreram em um ataque premeditado e cujo objetivo era vingar Maomé.

A brutalidade e a estupidez do ataque dispensam qualquer tipo de comentário, mas os reflexos deste incidente na Europa são preocupantes. Para os mulçumanos que vivem na Europa e é importante lembrar que só o conflito na Síria foi responsável pelo êxodo de 3 milhões de pessoas para outros países, inclusive para o Brasil, o ataque vem em um momento delicado. Após investigações indicarem que há entre os soldados do Estado Islâmico europeus convertidos e recrutados por extremistas, há uma preocupação generalizada com o crescimento da população mulçumana em território europeu. Em alguns países já se fala em conter a imigração e anular passaportes de cidadãos europeus envolvidos com estes grupos. Está em estudo também a adoção de critérios mais severos,  como limitar o acesso aos benefícios sociais. Ontem foi um dia de protestos na Alemanha, que  ocorreram em várias cidades e foram organizados por grupos políticos que temem a “islamização do ocidente”. A Primeira-Ministra Angela Merkel em um firme pronunciamento, afirmou que é obrigação da Alemanha acolher os que fogem de conflitos e massacres.

O Primeiro-Ministro inglês David Cameron vem alertando há anos sobre o perigo que o crescimento do extremismo dentro das fronteiras britânicas representa para a segurança e liberdade dos cidadãos. Em sua opinião, os mulçumanos devem seguir os princípios da Grã-Bretanha, que precisam inclusive serem ensinados nas escolas. No ano passado, em um discurso no Parlamento ocorrido após a decapitação do jornalista americano pelo Estado Islâmico, ele alertou que entre os membros do grupo havia cidadãos britânicos e que era preciso que as agências de segurança compartilhassem dados para evitar que estas pessoas voltassem ao país. Além disso, queixas de britânicos sobre atos de intolerância praticados por mulçumanos residentes na Grã-Bretanha vem crescendo, como por exemplo ofender mulheres nas ruas por hábitos e roupas ocidentais.

A tragédia que as guerras e conflitos que ocorrem no Oriente Médio não se mede apenas no número crescente de mortos, que não diferencia idade. Gerações inteiras não têm direitos básicos, como o de ir e vir. São soldados em guerras que muitos deles sequer sabem como começou, porque também não tem acesso à educação e saúde. São alvos ou munição em conflitos que utilizam a religião e a intolerância como combustível. Aprende-se a odiar e a temer antes de entender o que significa amar. Se não são vítimas da guerra, sofrem igualmente em sociedades governadas por ditadores que se perpetuam no poder, sem perspectivas de crescimento pessoal ou de acesso aos benefícios que as riquezas geradas por seus países podem  trazer. Há bilionários e miseráveis que convivem em sociedades que ainda mantém ritos tribais e que permitiu até a segunda década do século XX a existência de “servos”.  Uma das conquistas  da”Primavera Árabe” foi a distribuição de benefícios sociais em alguns países e que não foi feito  pela obrigação que um governo tem em atender seus cidadãos, mas pelo temor em perder o poder.

A imigração para eles representa uma saída deste sistema brutal e uma oportunidade em crescer e ter uma vida normal. Deixam para traz a casa, parentes, amigos e partem para o desconhecido. O problema é que eles são membros de uma sociedade que se organiza a partir da religião e de seus costumes e alguns poucos acabam levando esta bagagem para os países em que vão viver. Importante é saber que o Islã não é sinônimo de intolerância e de morte e sim uma religião que tem como fundamentos o amor, a paz e o crescimento pessoal. É preciso lutar contra o extremismo mas não se pode ver em todo mulçumano um extremista. Na noite fria de Paris, havia até agora a pouco uma multidão na rua em vigília pelos mortos. Alguns começaram a cantar  “ A Marselhesa” , que é o hino oficial da França o que remete à defesa da pátria, o que é preocupante. A hora é de sabedoria, de não generalizar e de não aumentar o estigma sobre a população mulçumana. Prender os culpados e lutar contra os extremistas de todos os lados, como a revista “Charlie Hebdo” e seus cartunistas fizeram durante suas vidas é manter vivos seus legados.

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