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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Minhas amigas, meu porto seguro

Para mim, a vida começou depois dos trinta. Acho que a partir desta idade você passa a lidar melhor com os fatos, a dormir sobre o assunto, a pensar mais com o cérebro e deixa o fígado em paz. Quando você chega aos quarenta, tem aquela crise inevitável em que você começa a sentir as diferenças em seu corpo, que tem começa a apresentar um certo descompasso com a velocidade de sua mente. Depois eles se equilibram e conseguem caminhar bem juntos. Quanto mais o tempo passa, mais aprendemos a separar os sentimentos da realidade, a gente supõe menos e você já sabe o que pode agüentar, o tamanho do passo que pode dar. Nesta evolução, nossa visão sobre um relacionamento ideal também muda. Você já não se conforma com o que é familiar porque você sabe exatamente do que precisa e o que você não quer mais na sua vida. Como conviver consigo já não é tão desafiador, o que era solidão passa a ser opção de vida.

Em minha vida social tenho convivido com extremos entre minhas amizades, que enriquecem meu dia e minha vida. Escuto atentamente cada uma da mesma forma que elas me escutam, nos ajudamos e nos incentivamos dentro de círculos onde a competição não tem vez . Tenho a amiga viúva que sempre teve a casa cheia e está  aprendendo a viver sozinha, a jovem que começa a planejar a vida a dois,  a que tem pavor de ficar sozinha, a que  tem uma relação saudável de longa data, a que não quis se conformar e viaja o mundo realizando seus sonhos e a que se conformou e tenta maquiar sua infelicidade. Em comum todas nós temos aquela amizade e respeito pela fase ou realidade de cada uma, procuramos nos incentivar e emitir alertas quando necessário, o respeito pelo o que cada uma é, sem tentar mudar a alma da outra.

A minha amiga que é viúva teve um casamento de altos e baixos, viveu a solidão a dois, o nascimento, crescimento e partida dos filhos. A casa ficou grande e o silêncio tomou conta do lugar. O marido, que falava alto, que gostava de contrariar foi embora e o lugar dele continua igual, como se a qualquer momento ele fosse voltar e se sentar em sua cadeira, colocada estrategicamente em um ponto da sala entre o telefone, a  janela e a TV, na frente da porta de entrada. Daquele ponto ele tinha uma visão privilegiada da dinâmica da família,  silenciava a bagunça dos filhos, terminava conflitos ou iniciava outros e dava a última palavra. Os dois, depois que os filhos se foram tinham sua rotina, que começava de madrugada e se estendia durante o dia. As roupas dele permanecem no armário, bem como alguns itens pessoais ainda estão no banheiro.  Ela tem hoje os dias bons e os ruins,  mas pelo menos aquela névoa toda que a morte traz se dissipou, aos poucos ela vai vendo o mundo por seus próprios olhos, formando e reformando seus conceitos em uma época em que tudo  não se cansa de mudar.

A minha amiga jovem está empolgada com a aquisição de seu apartamento. Tem tanto bom senso que às vezes me esqueço de sua idade. Fala com tanta profundidade sobre alguns assuntos que às vezes me preocupo com sua reação diante daqueles fatos que às vezes reviram nosso mundo e nos colocam a prova. Mas é uma vencedora, é persistente e aceita todos os desafios que a vida manda, com aquele curiosidade que só os jovens tem. Acho sensacional a forma como ela divide a vida dela em departamentos, um não bagunça o outro. Tem o departamento do trabalho, onde ela consegue separar o que é temporário do que é carreira, tem o futuro cheio de planos e cheio de estratégias, tem o departamento do namorado que é muito amado e sabe que ela tem uma vida além dele , o da família e amigos e assim vai.

A minha amiga que não suporta ficar sozinha é uma pessoa adorável e inquieta. Sabe todas as tendências,  todos os melhores lugares, tem milhões de amigos mas ainda não encontrou o cara de seus sonhos. A gente conversa com ela e com muito tato, entre explosões de risos e de angústia, vamos mostrando  o quão especial  ela é e que a vida é mais que o presente, que a aparência. Que a gente às vezes tem que adequar o sonho à realidade, que ficar sozinha não é o fim do mundo, que ela deve procurar ter mais qualidade em suas relações,  mas que também não pode se conformar. Esta semana ela nos surpreendeu com tanto bom senso e maturidade que eu fiquei me perguntando se não é mais uma fase.

Minha outra amiga resolveu não se conformar com a vida que levava aqui no Brasil, onde aos poucos foi sendo bem sucedida em tudo. Veio de uma cidade bem pequena cheia de sonhos e de talentos, com uma garra que não percebemos quando olhamos seu frágil exterior. Hoje mora na Europa, onde fez uma segunda faculdade e onde procura desenvolver seus dons. Viaja com freqüência, esteve em lugares maravilhosos e todos os anos em seu aniversário eu a parabenizo por transformar sonhos em realidade. Ela é minha amiga dos bons exemplos e torço para que nestas viagens, nestas idas e vindas, ela encontre a felicidade e a segurança que ela busca no fundo do coração, que é bem diferente daquela que ela deixa para trás quando parte para uma nova conquista.

Tenho a amiga que tem um relacionamento de longa data, onde eles são parceiros e cúmplices. Às vezes ele liga para que ela explique uma brincadeira que ele quer fazer com os amigos, para saber como ela está, para tirar uma dúvida. Dividem as tarefas da casa, viajam quando possível, tem uma convivência familiar rica, tudo aquilo que uma relação a dois precisa, que reconhece limites, que sabe que o outro precisa de companhia e de momentos a sós,  que amor é lealdade,  é estar lá para  o outro. Um conhecimento tão amplo que só é adquirido por aqueles que vieram de outras relações e que acreditam que a vida é mais que solidão. Um complementa o outro e ela a acalma a olhos vistos. Quando termina o horário de trabalho ele está lá, pronto para levá-la para casa e um alegra o outro com as pequenas histórias do dia a dia.

E tem minha amiga que mascara a relação falida, que continua em um casamento onde a única coisa em comum são os filhos. Tem coragem e disposição para trabalhar invejáveis, mas tem medo do sofrimento, da escolha, das disputas inevitáveis que virão com o final. Ela se acomodou em uma vida onde o sossego está fora de casa, que não sente alegria nas sextas, pois sabe que o embate no final de semana será inevitável. Mas na segunda, é a pessoa mais positiva da empresa onde trabalha.


Cada uma delas acrescenta algo positivo em minha vida. Concordando em discordar, com tantas experiências e perspectivas diferentes, temos as conversas mais engraçadas e profundas, aqueles momentos de cumplicidade, sem julgamentos que ajudam a gente a levar a vida de forma mais leve, respeitando os humores e momentos de cada uma. Sem perceber, cada uma de nós, mesmo em nossos silêncios, em nossas ausências, somos um porto seguro para as outras. O Içami Tiba costuma dizer que as mulheres se dividem em duas categorias, as que pedem e as que dão o absorvente. Eu diria que as mulheres tem dias em que pedem e outros que emprestam. É uma troca.

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