Quem sou eu

Minha foto

Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

sábado, 8 de novembro de 2014

Médico do Interior

Nasceu no interior de Minas Gerais, filho único de uma família que se dedicou muito para que ele pudesse estudar e realizar seus sonhos. Ao terminar seus estudos, foi para o Rio de Janeiro se preparar para os exames de admissão companhia dos primos. Aceito em três universidades, optou pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Como bom mineiro, desenvolveu um carinho muito grande pelo Rio . Anos depois, participei de uma viagem com ele e sua família e ele nos mostrava cantos e recantos típicos de alguém que teve intimidade com o local. Em 1963, após a conclusão do curso de Ciências Médicas, especializou-se em Cirurgia Geral. Terminada a especialização poderia voltar para casa ou permanecer no Rio de Janeiro. Mas, um pequeno anuncio publicado em um jornal chamou sua atenção: "Precisa-se de médico clínico geral para a cidade de Valparaíso, estado de São Paulo."

Hoje, acho incrível que ele tenha respondido ao anúncio, pois a cidade foi tão pequena durante tanto tempo que mesmo no estado de São Paulo não é conhecida até hoje. Não sei quantas respostas o anúncio teve,mas ele foi aceito. Deveria procurar o Dr. Sérgio ao chegar na cidade. E para chegar na cidade, pegou carona no avião do Correio Nacional até Bauru e completou o restante do caminho em um trem. Acredito que ao chegar em Valparaíso, depois de tão longa viagem,  sua aparência não impressionava muito, uma vez que ao ser apresentado ao médico responsável por sua contratação, foi confundido com o afinador de pianos. Após acertarem os detalhes de seu contrato, ele se dirigiu à Santa Casa, onde ocupou um pequeno quarto no hospital até montar sua casa.

Em uma pequena cidade do interior de São Paulo, que até então tinha altos índices de mortalidade infantil , ele chegou e fez diferença. A primeira cesariana da cidade foi ele quem fez e a família do bebê o agradeceu durante anos, sempre na data de aniversário da criança. Trouxe consigo conhecimento e técnicas cirúrgicas avançadas e fez diagnósticos incríveis para a época, encaminhando pacientes para centros e profissionais de referência, que o parabenizaram por seu conhecimento. Empenhou-se na reforma e modernização da maternidade do hospital, e foi neste setor que minha família o conheceu, quando nasci. Minha irmã corria pelos corredores e ele, atraído pelo barulho, foi verificar o que estava acontecendo. Ao se depara com minha irmã, pousou a mão gentilmente sobre sua cabeça e disse aos meus pais que ela tinha todo direito de fazer o que quisesse. Pouco tempo depois ele deixaria uma assinatura permanente em meu queixo: três pontos depois de uma escalada mal-sucedida.

Candidatou-se a vereador e venceu as eleições e foi um dos melhores vereadores que a cidade teve, com projetos voltados para saúde e saneamento básico. Em uma cidade pacata que costuma entrar em ebulição na época das eleições pela divisão dos candidatos entre representantes dos ricos e dos pobres, divisão que veríamos ocorrer no cenário nacional em 2014, foi convidado a concorrer ao cargo de prefeito e sua eleição era dada como certa. Fez amigos, casou-se com a moça mais bonita da cidade e um dia precisou ir embora. Mudou-se, teve filhos, que foram tema de nossa última conversa. Tinha um orgulho imenso de cada um deles e um grande amor pelos netos que estavam chegando.


Ironia do destino, foi diagnosticado com câncer. Fez questão de levar pessoalmente o material da biopsia ao laboratório de patologia que ele ajudou a trazer para sua cidade. Entre o diagnóstico e a cirurgia, que ele não considerava complexa, a família o viu seguir seu rito costumeiro de  estudar e visualizar mentalmente todas as etapas do procedimento,em um canto escuro da sala, como tantas vezes tinha feito antes com outros pacientes. Ao ser internado, fez um auto exame clínico e já sabia a extensão da cirurgia. Infelizmente, ele se foi, mas deixou várias lições de vida para todos que tiveram o privilégio de o conhecer. A dedicação à Medicina não apenas como profissão, mas como forma de melhorar a vida das pessoas, o comprometimento com o paciente, o desejo de fazer a diferença e sua retidão moral. Ele nos deixou mais tristes, mas nos consola o fato de sermos parte de sua história. Em tempos de importação de médicos, de falência do SUS, da mercantilização da profissão, eu tenho muito orgulho de dizer que meu tio fez opções corajosas e únicas; que meu tio era uma pessoa com ideais bem diferentes e que foi fiel a eles. Não um sonhador, como geralmente imagina-se ser uma pessoa assim, mas antes de tudo um homem de realizações, que deixou seu nome gravado na história de vida de muitas pessoas. Saudades,tio! 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui seu comentário: