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Graduada em Processamento de Dados
Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

domingo, 12 de outubro de 2014

Dia das crianças


Fomos felizes e não sabíamos. Nossa infância teve mais palmeiras e de fato não só escutávamos como víamos o sabiá. Tivemos o luxo de brincar com as crianças da rua e quem tinha a bola ou o brinquedo tinha mais privilégios. Podíamos riscar com o giz “emprestado” da escola a casa de nossos sonhos, a amarelinha, o campo de jogo e o nosso futuro. Televisão só depois da tarefa e do banho tomado ou antes de sair para a rua, afinal criança suja não entrava na sala. Corríamos do cachorro bravo, subíamos em árvores, brincava-se de roda, de corda, de mês. Vez ou outra o vizinho fazia cara feia por causa do barulho das disputas ou reclamava da bola que insistia em cair em seu quintal. E tinha aquele, que ao não devolver a bola, desencadeava a criação e propagação de lendas terríveis. Tempo bom em que éramos crianças até quando escolhíamos deixar de ser, o que acontecia por volta dos quatorze anos e percebíamos isto quando começávamos a criticar os amigos e amigas que ainda brincavam na rua.

Moro em uma cidade do interior, tenho dois filhos cuja infância já foi bem diferente. A televisão acabou sendo a contadora de histórias, disputando espaço com o videogame. Brincaram de “becha” na rua, de futebol, bateram figurinhas, mas tudo sob um olhar muito atento e temeroso. Tinham horário para brincar na rua, ruas determinadas onde podiam ir e uma porção de regras que tinham que seguir. Aos quatorze anos também deixaram de ser crianças, mas não por opção, mas por obrigação,  para se prepararem o melhor possível para a maratona de disputas que os jovens enfrentam,  assim começaram a correr para ir e voltar de cursos, da escola, para fazer trabalhos e esta correria toda os levou a concorrer por uma vaga através do vestibular,  por um curso a mais na faculdade e agora ao mercado de trabalho. A casa ficou vazia cedo e em minha rua não tem mais crianças brincando. Eu as vejo por trás das grades brincando em casa, algumas com um tablet na mão. O barulho que escuto é de músicas estilo “sertanejo universitário” ou “funk” tocando em carros, em horários impróprios.

Fico espantada em ver como as crianças hoje crescem rápido. As meninas de doze anos de hoje equivalem as de dezesseis de ontem. Sabem de tudo, conversam sobre tudo com uma familiaridade espantosa. Embora seus pais tenham mais conhecimento que os nossos, acabam por sofrer prematuramente angustias que para nós seriam quase insuportáveis. A família é diferente, os valores são diferentes, o consumo tem um lugar privilegiado e a sociedade é bem menos paciente e tolerante com a natureza da criança. São quase pequenos adultos, que convivem e repetem comportamentos dos familiares e da televisão, sem filtro e sem amadurecimento. As frustrações são inevitáveis porque o reconhecimento e o sucesso tem que ser imediatos.

O medo da violência e a falta de espaço trazem as crianças para dentro de casa e neste espaço, dividindo o tempo com a escola e dezenas de outras atividades, eles crescem e se preparam para enfrentar o mundo em ritmo acelerado. Não há tempo para ser criança, para aproveitar o mundo que só eles podem ver, é preciso correr, ter e ser. De preferência, sem fazer barulho que é para não incomodar os outros ou os pais, que acabam por ser mais infantis que os próprios filhos, pois eles precisam do “espaço” e do “tempo” deles.

Um comentário:

  1. Adorei seu blog, você escreve muito bem. Seu filho Daniel que me indicou :)

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