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Pós-Graduação em Gestão Estratégica de Negócios

terça-feira, 22 de julho de 2014

Quando fui milionária


Acessando minhas redes sociais me deparei com uma postagem de meu primo, falando justamente sobre isto. Fui milionária duas vezes, pelo que me lembro. Na época, o Brasil vivia o processo da hiperinflação e o cruzado ou cruzeiro, valia muito pouco,  assim, o que hoje era cem, amanhã seria mil e depois, um milhão.

Para proteger seu dinheiro, havia uma aplicação que se chamava overnight. Antes do plano Collor, ela garantia rendimentos de 100% durante o período. Meu primeiro salário foi aplicado em um fundo que me garantiu 50% de rendimentos após 30 dias! E sagrado depósito na caderneta de poupança. Uma vez fiz um saque desastrado que quase me custou o casamento! Compras a crédito, impossível, tudo à vista ou com cheque pré-datado. Para compras com cartão de crédito, que poucas empresas aceitavam, geralmente tinha uma cobrança adicional. Nas compras de supermercado, era aconselhável fazer um estoque. Em tempos em que não existia internet, feliz era quem conhecia um mórmon para ter dicas de conservação de alimentos, já que esta prática é aconselhada pela religião deles!

Quanto ao fato de ser milionária, não significava nada na prática, era simplesmente a correção do valor perdido para inflação. Éramos milionários para ter uma vida do que hoje pode ser considerado Classe C ou D. Na verdade, quando a coisa chegava na casa dos milhões, complicava na hora de fazer as contas. Como o uso de computadores não era comum nas residências na época, pois o país estava saindo da Lei de Reserva de Mercado, o excesso de zeros era um problemão para as calculadoras. Assim, com plano ou sem plano, cortava-se os zeros e começava tudo de novo.

Quando Fernando Collor foi eleito, todo mundo sabia que haveria bloqueio das contas de poupança e do overnight. Embora a Ministra Zélia negasse, o confisco estava no ar. Nessa época nossas economias já tinham sido gastas em uma reforma em nossa casa, que só foi comprada graças a negociações que duraram uma semana e ao proprietário que segurou o preço do imóvel durante 15 dias. Mas acabamos tendo que pagar o “empréstimo compulsório” nos combustíveis. Quando falamos em empréstimo, imaginamos que receberemos de volta, mas não foi o que aconteceu neste caso! Meus pais guardaram por anos um calhamaço de notinhas de postos de combustíveis com esta esperança.

Veio então o Plano Real. Um real valia um dólar e as medidas foram implementadas gradativamente. Ainda me lembro de soldados nas portas das agências do Banco do Brasil antes da implantação da moeda. Teve explosão de consumo, teve gente que pagou ágio para comprar um Corsa ( carro zero era investimento), mas o dinheiro começou a valer alguma coisa e aos poucos, as coisas foram chegando no lugar. Depois disso, teve a crise com a Moratória da Rússia, em 1998, onde a Tailândia, para conter a desvalorização de sua moeda, esgotou suas reservas. No Brasil sentimos os efeitos, mas com a adoção do câmbio flutuante o perigo maior foi contornado.

Não sou milionária, mas não tenho saudades do tempo em que fui e fico aliviada quando vejo meus filhos fazendo planos de longo prazo. Hoje, minha maior preocupação é com a inflação, porque se tenho um aumento de 8%, sei que na prática meu aumento real foi de no máximo 1,48%. Fico preocupada em as Leis de Conteúdo Nacional, porque elas acabam por sangrar o Tesouro desnecessariamente. Fico preocupada com a falta de orçamento e como tamanho da máquina administrativa do governo. Fico preocupada com as empresas distribuidoras de energia que viram sua receita diminuir e agora buscam empréstimos para se manter. Fico aterrorizada com a interferência do governo na economia, afastando investidores, com a falta de recursos e bom senso na gestão da saúde, que repassa valores irrisórios a hospitais, que para sobreviver, diminuem o número de leitos e os atendimentos do SUS. Fico envergonhada com a corrupção que assola nosso país e revoltada quando vejo a qualidade das obras entregues, especialmente quando um viaduto cai e mata pessoas antes mesmo de ser inaugurado. Fico enojada quando vejo a evolução do patrimônio de pessoas que se alimentam da miséria alheia, através desta máquina de desvio e de esquemas que se instalou no centro do poder. Não era este o país que imaginávamos quando começamos a ter esperanças de um futuro melhor.

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